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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Geração à Rasca - A Nossa Culpa



Um dia, isto tinha de acontecer.

Existe uma geração à rasca? 


Existe mais do que uma! 


Certamente! 






Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. 
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Quando Eu Sonhava


Quando eu sonhava, era assim 
Que nos meus sonhos a via; 
E era assim que me fugia, 
Apenas eu despertava, 
Essa imagem fugidia 
Que nunca pude alcançar. 
Agora, que estou desperto, 
Agora a vejo fixar... 
Para quê? - Quando era vaga, 
Uma ideia, um pensamento, 
Um raio de estrela incerto 
No imenso firmamento, 
Uma quimera, um vão sonho, 
Eu sonhava - mas vivia: 
Prazer não sabia o que era, 
Mas dor, não na conhecia ... 


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas' 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ALENTEJO


Alentejo 

A luz que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!... 


 Miguel Torga

O Campo

O campo é onde não estamos...
Ali,só ali, 
há sombras verdadeiras...
...e verdadeiro arvoredo.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Êstase - Miguel Torga

Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim e eu em ti!

Miguel Torga

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Palavras Andarilhas despedem-se até 2016



A edição de 2014 começou e terminou com a participação de dois amigos de longa data. Respetivamente o Prof. Martinho Marques e o Jorge Serafim.

É sem dúvida, um previlégio imenso ter amigos destes. Um abraço para os dois.

Também é sem dúvida um previlégio poder ter contribuído, embora de forma singela, para o sucesso deste grande evento que projeta o nome de Beja além fronteiras.

Para mais tarde recordar aqui ficam alguns mementos.

Até 2016.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O melhor presente do mundo

A todos quantos, de ambos os lados do conflito,
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.


Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça em carvalho do início do século XIX. Há já anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa tinha várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e havia marcas de queimaduras por todo o lado.
Não era cara, e pensei que poderia tentar restaurá-la eu mesmo. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de ter uma escrivaninha assim. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que havia em casa. Faziam muito barulho e eu queria ter algum sossego.
Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas prenunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude.
Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito “A última carta de Jim, recebida a 25 de janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”
Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre. Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de dezembro de 1914.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Os Livros

Os livros. A sua cálida
Terna, serena pele. Amorosa
Companhia. Dispostos sempre
A partilhar o sol
Das suas águas. Tão dóceis
Tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal cerrada
Melancolia.
Amados
Como nenhuns outros companheiros
Da alma. Tão musicais
No fluvial e transbordante
Ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade

quinta-feira, 5 de junho de 2014

AS FLORES E A HORTA


Nos Direitos do Homem, quanto a mim,
faz uma falta enorme que não venha
que toda a humana criatura tenha
direito a ter um jardim!

Este jardim é apenas um cantinho,
como convém;
mas as coisas do rude jardinzinho
criam-se bem.

Temos cravos vermelhos a cantar
com rubra voz,
que perfuma, com a cor e o cheiro, o ar
em roda de nós.

Temos os girassóis, que todo o dia
olham de frente
o Sol, e ensinam, simples, a alegria,
heroicamente.

Temos as sardinheiras, — raparigas
filhas do povo,
que vão p’ra a festa com seu lenço novo
a rir cantigas!

Temos as rosas bravas, linda flor
do meu amor;
e as doces moreninhas dos poetas:
as violetas.

Entre a beleza pródiga das cores
e dos perfumes,
florescem essas outras verdes flores:
os legumes.

As couves, com o seu verde meigo e ledo,
são tão belas!
(E houve tempo em que os poetas tinham medo
de falar delas...)

Enfim, todo ele é apenas um cantinho,
como convém:
mas as coisas do rude jardinzinho
criam-se bem.

Dá-nos as flores e a horta e, ao fim do dia,
Sentimo-lo sorrir e respirar...
E a mim dá-me a ilusão dessa alegria
de lidar com a terra — e de a cavar!


Afonso Lopes Vieira 
Canções do Vento e do Sol

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Uma flor chamada Poesia




Eu vi a corola abrir a porta
E dobrar o caule.
Sentou-se à minha frente
Com as sépalas sobre a mesa
Como se fosse uma princesa.
Puxou um balde de água
Para molhar a raiz dos sonhos.
Abanou uma abelha para longe
E começou a estremecer
Como se estivesse a escrever.
Sou uma flor sem nome
Não venho no dicionário
Não há retrato meu pelos jardins
Mas estou aqui real e concreta
Qual é o meu nome, ó poeta?
E não é que uma borboleta
Lhe sai de dentro da cor
Para desenhar a pólen
O nome que ela queria?
Como é bom uma flor chamar-se
Poesia!



José Alberto Marques
Carta a um Jovem antes de ser Poeta
Porto, Ed. Campo das Letras, 2002

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Coisas de mãe

Há muito tempo, numa aldeia pequenina, pequenina, havia uma casa antiga. Tinha uma escada de pedra gasta, e janelas e portas pintadas de azul.
Ao princípio da tarde, na varanda da casa, uma menina adormecia, todos os dias, no colo da sua mãe.
A mãe, sentada numa cadeira, cantava uma canção:
 
De manhã segue uma estrela 
à tarde os girassóis. 
De noite segue o silêncio 
escondido nos lençóis.
 
Ao fim da tarde, depois da sesta, a menina ia com a mãe regar a horta.
O milho ainda era verde e o canto das cigarras andava pelo ar.
Havia pequenos momentos de grande silêncio.
E o tempo passava devagar…
 
No ar sentia-se o cheiro da terra molhada.
A menina gostava desse cheiro que lhe fazia cócegas no nariz.
E gostava de ficar sentada no chão a mexer na terra e na água.
O cantar da mãe brincava-lhe no pensamento: 
 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Unidos na esperança

Nasci no sul do Sudão, onde vivia com os meus pais, os meus avós e duas irmãs, numa pequena casa feita de lama e colmo. A minha família era considerada abastada, porque o meu pai possuía muitas cabeças de gado.
Quando eu era criança, tinha medo de animais grandes.
— Sou demasiado pequeno para tomar conta de animais tão grandes! — exclamei, no dia em que o meu pai disse que teria de aprender a cuidar do gado. 
Mas o meu pai sorriu e animou-me:
— Garang, sê corajoso. Tens um coração e uma cabeça fortes. Não há nada que não consigas fazer.
Quando fiz oito anos, comecei, sozinho, a tomar conta de algumas pequenas vitelas. Limpava-as, cuidava delas quando estavam doentes, conduzia-as às melhores pastagens e bebedouros. Rapidamente aprendi a amar os animais.
Mal sabia que a minha vida iria mudar completamente.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O homem que ficou sem sono

Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava. Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra.
Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação. O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores.
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A América fica longe?

Vivia-se bem na nossa aldeia até àquela noite de outubro em que os soldados vieram. A minha mãe escondeu-nos, à minha irmã e a mim, debaixo da cama. Quando espreitei para ver o que se passava, apenas vi os pés da minha mãe enfiados nos chinelos pretos e as botas grandes e lamacentas dos soldados.
Depois de saírem, o meu pai disse:
— Temos de partir já.
— Porquê? — perguntei.
— Porque não pensamos da mesma forma que eles, meu filho. Despachemo-nos!
O meu pai não nos deixava levar nada à excepção de uma muda de roupa. A minha mãe indignou-se:
— Vou ter de deixar todas as minhas coisas? A cadeira onde embalei os nossos filhos, a coberta que a minha mãe fez, ponto por ponto?
— Não levamos nada — tornou o meu pai. — Apenas o dinheiro para comprar a passagem para a América.
A palavra “América” não me era desconhecida, pois tinha ouvido os meus pais murmurá-la em noites inquietas. Seria esse, então, o nosso destino?
Nessa noite, vi pessoas a caminhar em silêncio pelas ruas recônditas e barcos junto ao cais, a balançar na água escura, enquanto homens falavam em segredo e o ouro passava de bolso em bolso.
— Preciso da tua aliança — disse o meu pai à minha mãe. — E das tuas granadas.
Sem dizer palavra, a minha mãe tirou o anel do dedo e o colar de granadas da bolsinha onde o guardava, depositada no fundo da trouxa que fizera.  
O meu pai disse que partiríamos de noite.
— Quantos dias faltam para chegar à América? — perguntou a minha irmã.
— Não muitos — respondeu o meu pai. — Não tenhas medo! — sossegou-a.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Flores esmagadas - Porque hoje é o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina


Nascida na cidade de Cartum, no meio do deserto, Leila compreende desde cedo que não faz parte da sociedade sudanesa. Na escola, ela e a sua melhor amiga, Amal, são apelidadas de “filhas do pecado”. O mais próximo que tem de um lar é um orfanato severo, onde partilha a sua solidão com outras crianças abandonadas. A sua irmã mais velha, Zulima, está casada com um homem muito mais velho, o que é por todos considerado uma sorte, uma vez que uma rapariga abandonada raramente consegue quebrar o ciclo de miséria. Quando fazem dez anos, Leila e Amal não têm direito a celebrar. São, antes, submetidas à mutilação genital.



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Porque é Livre a Lua...?

Oh, como o Sol amava a Lua! Tão pálida e tão adorável.

 O Sol morria por se casar com ela.

— És mais bela do que as nuvens e com mais encanto ainda do que a rosa mais fresca. Quero-te só para mim — disse-lhe o Sol.
A Lua estava habituada a brilhar sozinha todas as noites e gostava disso. Sempre que se sentia só, tinha milhões de estrelas com quem conversar, meteoros para disputar corridas e planetas que a faziam rir.
Por isso a Lua respondeu ao Sol:
— Caso contigo, mas com uma condição. Tens de me dar uma prenda linda. Gosto de camisas bordadas. De blusas brancas aos folhos. Gosto de grandes saias a flutuar ao vento da noite. Pode ser qualquer coisa, mas tem de me assentar bem. E ser exatamente do meu tamanho!
O Sol, embora estivesse cansado de aquecer a Terra e de iluminar o Céu todo o dia, passou a noite inteira acordado observando a Lua, na tentativa de escolher o presente certo. Mas não se decidia.
— Tens de ficar mais bonita ainda, quando fores minha esposa — disse o Sol. — Eu posso arranjar-te o que quiseres. Por favor, diz-me o que te agradaria mais, meu amor!
Mas decidiu-se finalmente por uma saia tecida com fio de ouro e finas tiras de luz estelar.
— Oh, todas as estrelas vão invejar a minha noiva —pensou o Sol.
Mas depois, quando o Sol viu de novo a Lua, ficou admirado: ela não era mais do que uma vaga forma, quase uma sombra do que anteriormente fora.
—Oh, minha querida! — gritou. — O amor tirou-te o apetite. Como estás magra!
Correndo, o Sol atravessou o Céu e foi ter com o seu alfaiate para que apertasse a saia de modo a que ficasse bem à nova lua nova, comprida e esbelta. Mas quando regressou, a Lua, que já engordara um pouco, não pôde fazer passar a saia pelas ancas.
— Ai! — exclamou.
E até ficou azul de tanto se esforçar, para meter o seu corpo lunar na apertada saia…
— Não é este o tamanho. Esta saia sufoca-me e tira-me a luz.
— Ai, meu amor. O que acontece é que agora estás um pouco mais gordinha, mas vais ver. Quando eu voltar, a saia vai-te assentar bem! — disse o Sol.
E apressou-se a atravessar as montanhas e a pedir ao Relâmpago que acrescentasse à saia umas riscas da sua luz resplandecente para que os quadris mais largos da Lua passassem sem problemas.
Mas entretanto, passados que foram dois dias, a Lua já estava mais gorda. Por isso, teve de conter de novo a respiração e de apertar a barriga o mais que pôde.
— Achas que eu sou tão redonda como uma panqueca? — gemeu. E ao soltar-se, o esforço que fez gelou a cara ardente do Sol.
— Como pudeste pensar que esta saia me ia ficar bem?
Durante trinta dias, o Sol tentou de novo uma e outra vez, sem nunca conseguir acertar com as medidas exatas da Lua. Sempre a mudar! Tirava-as com cuidado para que a roupa lhe assentasse na perfeição. Mas, qualquer que fosse o presente — outra saia, um chapéu diferente ou um novo casaco, era sempre muito pequeno, apertado ou largo de mais!
Por esta razão, o Sol nunca pôde casar com a Lua. Agora, todos os dias, pouco antes de ir dormir ao Céu do ocidente, o Sol observa a Lua, que às vezes está delgada, outras vezes mais redonda, com frequência num meio-termo, mas sempre a brilhar com aquela luz prateada e cintilante. E a única coisa que lhe resta é contemplá-la do outro lado do Céu quando a noite vem….
E todas as noites, antes de se deitar, o Sol suspira — longa e tristemente — pelo seu amor rejeitado.
E, em cada noite, enquanto caminha pelo Céu, a Lua ri-se de prazer e de alívio.
Mary-Joan Gerson
Fiesta femenina
Cambridge, Barefoot Books, 2003
(Tradução e adaptação)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Uma estrela com luz de poesia

 De repente, passou uma pequena nuvem de tristeza sobre os olhos de Francisca. A avó Josefa partira há dois anos para um sítio de onde ninguém costuma mandar notícias. Antes da partida ainda sofreu muito, e tão depressa a queria junto de si, para sentir o calor do seu carinho, como a queria longe, para não se aperceber dos rostos que o sofrimento pode ter.
Francisca ainda era pequena mas nunca mais esqueceu a dor daquela perda. Foi como se o mundo, naquele dia, tivesse decidido mostrar-lhe o seu lado negro e atemorizador, como se o sol se tivesse zangado com a claridade dos dias e como se até as lágrimas se recusassem a sair para não verem como dói ser infeliz.
Era Dezembro e, lá em casa, nesse ano, ninguém quis festejar o Natal, porque não havia vontade de dar nem de receber presentes e porque todas as conversas se encaminhavam no mesmo sentido, que era o da tristeza e do desconsolo.
Antes de partir, a avó Josefa dissera a Francisca:
— Uma noite, quando já estiver habituada à minha nova morada, hei de dar-te sinal para que saibas que estou bem e que penso em ti.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Qual é o Teu Valor de Mercado?

“Qual é o teu valor de mercado, mãe? Desculpa escrever-te uma pequena carta, mas


estou tão confuso que pensei que escrevendo me explicava melhor.

Vi ontem na televisão um senhor de cabelos brancos, julgo que se chama Catroga, a

explicar que vai ter um ordenado de 639 mil euros por ano na EDP, aquela empresa que

dava muito dinheiro ao Estado e que o governo ofereceu aos chineses.

Pus-me a fazer contas e percebi que o senhor vai ganhar 1750 euros por dia. E depois

ouvi o que ele disse na televisão. Vai ganhar muito dinheiro porque tem o seu valor de

mercado, tal como o Cristiano Ronaldo. Foi então que fiquei a pensar. Qual é o teu

valor de mercado, mãe?

Tu acordas todos os dias por volta das seis e meia da manhã, antes de saíres de casa

ainda preparas os nossos almoços, passas a ferro, arrumas a casa, depois sais para o

trabalho e demoras uma hora em transportes, entra e sai do comboio, entra e sai do

autocarro, por fim lá chegas e trabalhas 8 horas, com mais meia hora agora, já é noite

quando regressas a casa e fazes o jantar, arrumas a casa e ainda fazes mil e uma coisas

até te deitares quando já eu estou há muito tempo a dormir.

O teu ordenado mensal, contaste-me tu, é pouco mais de metade do que aquele senhor

de cabelos brancos ganha num só dia. Afinal mãe qual é o teu valor de mercado? E qual

é o valor de mercado do avozinho? Começou a trabalhar com catorze anos, trabalhou

quase sessenta anos e tem uma reforma de quinhentos euros, muito boa, diz ele, se

comparada com a da maioria dos portugueses. Qual é o valor de mercado do avô, mãe?

E qual é o valor de mercado desses portugueses todos que ainda recebem menos que o

avô? Qual é o valor de mercado da vizinha do andar de cima que trabalha numa empresa

de limpezas?

Ontem à tardinha ela estava a conversar com a vizinha do terceiro esquerdo e dizia que

tem dias de trabalhar catorze horas, que não almoça por falta de tempo, que costumava

comer um iogurte no autocarro mas que desde que o motorista lhe disse que era

proibido comer nos transportes públicos se habituou a deixar de almoçar. Hábitos!

Qual é o valor de mercado da vizinha, mãe? E a minha prima Ana que depois de ter

feito o mestrado trabalha naquilo dos telefones, o “call center”, enquanto vai preparando

o doutoramento? Ela deve ter um enorme valor de mercado! E o senhor Luís da

mercearia que abre a loja muito cedo e está lá o dia todo até ser bem de noite, trabalha

aos fins de semana e diz ele que paga mais impostos que os bancos?

Que enorme valor de mercado deve ter! O primo Zé que está desempregado, depois da

empresa onde trabalhava há muitos anos ter encerrado, deve ter um valor de mercado

enorme! Só não percebo como é que com tanto valor de mercado vocês todos trabalham

tanto e recebem tão pouco! Também não entendo lá muito bem – mas é normal, sou

criança – o que é isso do valor de mercado que dá milhões ao senhor de cabelos brancos

e dá miséria, muito trabalho e sofrimento a quase todas as pessoas que eu conheço!

Foi por isso que te escrevi, mãe. Assim, a pôr as letrinhas num papel, pensava eu que

me entendia melhor, mas até agora ainda estou cheio de dúvidas. Afinal, mãe, qual o teu

valor de mercado? E o meu?”

Francisco Queirós