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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Faça Sol ou Faça Chuva
No mercado 25 de Abril, ou mercado de Santo Amaro, todos os sábados, faça chuva ou faça sol, alinham-se os produtores com os seus hortícolas frescos e os produtos regionais.
Assim, todos os sábados, em Beja, junto à muralha do Castelo, estendendo-se entre o Largo de Santo Amaro e o Largo do Lidador, há encontro marcado entre vendedores e compradores, durante a manhã.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
As batatas da concórdia
Há muito, muito tempo, havia dois países. Um ficava a leste e o outro a oeste.
Um dia, declararam guerra um ao outro e ninguém mais teve tempo para se ocupar dos campos, das vacas e das galinhas. Era preciso afiar as espadas, fabricar balas de canhão, ou recoser os botões dos uniformes dos soldados.
Num vale situado entre os dois países, vivia uma mulher que queria ignorar a guerra. Tinha dois filhos, uma vaca, algumas galinhas, e um grande campo de batatas. Para proteger os filhos e o campo da guerra, construiu um muro em torno da propriedade. Os filhos adoravam a mãe e ajudavam-na a plantar e a colher as batatas. Também tomavam conta da vaca e das galinhas. Apreciavam ambos a macieza dos seus leitos e a tranquilidade da sua casa.
Por vezes perguntavam:
— Por que razão temos de viver rodeados por um muro?
Ao que a mãe respondia:
— Porque as batatas não cresceriam se sentissem o sopro do vento leste e o sopro do vento oeste.
Durante as frias noites de inverno, enquanto as tormentas e os combates sacudiam o céu e a terra, mãe e filhos comiam batatas cozidas na brasa.
domingo, 25 de janeiro de 2015
PARÁBOLA DA TÁBUA E DOS PREGOS
"Era uma vez um rapazinho que tinha um temperamento muito explosivo. Um dia, o pai deu-lhe um saco cheio de pregos e uma tábua de madeira.
Disse-lhe que martelasse um prego na tábua cada vez que perdesse a paciência com alguém.
No primeiro dia o rapaz pregou 37 pregos na tábua. Já nos dias seguintes, enquanto ia aprendendo a controlar a ira, o número de pregos martelados por dia foram diminuindo gradualmente.
Ele foi descobrindo que dava menos trabalho controlar a ira do que ter que ir todos os dias pregar vários pregos na tábua…
Finalmente chegou o dia em que não perdeu a paciência uma única vez.
Falou com o pai sobre o seu sucesso e sobre como se sentia melhor por não explodir com os outros.
O pai sugeriu-lhe que retirasse todos os pregos da tábua e que lha trouxesse.
O rapaz trouxe então a tábua, já sem os pregos, e entregou-a ao pai.
Este disse-lhe:
– Estás de parabéns, filho! Mas repara nos buracos que os pregos deixaram na tábua. Ela nunca mais ela será como antes. Quando falas enquanto estás com raiva, as tuas palavras deixam marcas como essas. Podes enfiar uma faca em alguém e depois retirá-la, mas não importa quantas vezes peças desculpas, a cicatriz ainda continuará lá. Uma agressão verbal é tão violenta como uma agressão física. Amigos são jóias raras, cada vez mais raras. Eles fazem-te sorrir e encorajam-te a alcançar o sucesso. Eles emprestam-te o ombro, compartilham os teus momentos de alegria, e têm sempre o coração aberto para ti."
In "FONTES DE SABER" da presente edição daRevista Progredir.
Leia a edição completa em http://issuu.com/
www.revistaprogredir.com
Identificações: Revista Progredir
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Haverá sempre mais um lugar na nossa estalagem
Devíamos dar do mesmo modo que recebemos, alegremente, rapidamente, sem hesitações;
pois não existe qualquer gratificação em ficar agarrado às coisas.Séneca
A aparelhagem embalava-nos com uma canção de Kenny Rogers, enquanto o aroma a canela criava um ambiente festivo na cozinha.
— Mãe, tens a Jen ao telefone — chamou Becca da sala, com grande excitação.
— A sério? Será que tiveram de alterar os planos?— respondi, sentindo um desagradável nó a formar-se no estômago.
Devido ao elevado custo, os telefonemas da nossa filha que se encontrava em missão num orfanato no México eram raros. Sacudindo a farinha das mãos, peguei no telefone e saudei:
— Olá, querida, mas que boa surpresa!
— Olá, mãe, como estão todos no Kansas? Mandaste vir neve para o Natal?
— Bem, espero bem que sim, mas tu sabes como é o Kansas. Podem estar cerca de vinte graus ou podem estar quase quinze negativos. Mas decerto que não telefonaste para falar do tempo.
— Bom, mãe, preciso de um enorme, Enorme, ENORME favor. Uma das minhas amigas dos tempos da faculdade está grávida e a família dela não pode saber. É uma coisa completamente condenável na cultura deles e ela está realmente com medo dos irmãos.
— E o que queres que faça?— perguntei, adivinhando já a resposta.
— Bom, será que ela pode ficar aí convosco até ter o bebé?
A menos de uma semana do Natal, como é que eu iria dizer que não a uma jovem grávida? Portanto, respondi:
— Bom, terei de falar com o teu pai, mas tenho a certeza de que não se importará. Entretanto, não achas que devias tentar que ela converse primeiro com os pais? Também não me agrada fazer parte de uma conspiração para enganar a família.
— A mãe dela está ainda na Arábia Saudita e ela não vê o pai há anos. Suponho que já imagines de quem se trata.
— Depois do que disseste, é óbvio que é a Sim — respondi, lembrando-me da bonita e corajosa amiga da minha filha. — Quando é que ela vem?
— O seu último exame é na sexta-feira de manhã, portanto ela poderia estar aí sexta à noite, não muito depois de eu e o Pete chegarmos. Quando é que a Beth e o Thomas regressam da faculdade?
— Chegam todos na sexta. Mal posso esperar! — respondi com entusiasmo.
— Eu também mal posso esperar — disse a Becca por cima do meu ombro.
— Olá, Bec! Também mal posso esperar por te ver. Gostava de falar mais, mas estas chamadas dão-me cabo do orçamento!— disse Jen à irmã.
— O teu voo chega na sexta de tarde?— perguntei, tentando encurtar.
— Sim. O Pete pediu para te dizer que já tem água na boca por causa dos teus pãezinhos caseiros. Muito obrigada, mãe. Amo-te.
— Diz ao Pete que não sei se os farei. Tenho imensas coisas para fazer na escola antes do fim do semestre. Amo-te muito, querida — respondi, sorrindo, a olhar para toda aquela farinha já ressequida nas minhas mãos.
A nossa “estalagem” ia ficar cheia pelo Natal. Jen iria ter de partilhar um quarto com as suas duas irmãs, enquanto nós transformávamos o seu velho e minúsculo quarto para dar um pouco mais de privacidade à Sim. Quatro dias mais tarde, já estávamos a desfrutar de uma casa cheia de barulho e diversão: embrulhar prendas, cozinhar e fazer os preparativos de última hora para o Natal. O telefone tocou. Thomas atendeu e perguntou:
— Mãe, queres atender uma chamada estranha a pagar no destino?
Quando me passou o telefone, ouvi a telefonista perguntar:
— Aceita uma chamada da Cadeia de Vernon County a pagar no destino?
Admirada mas curiosa, aceitei a chamada.
— Daqui fala o Agente Kasteel do Departamento do Xerife de Vernon County. É da residência de Thomas Garrity?— perguntou, enquanto os meus olhos pousavam sobre o meu filho que se espreguiçava no sofá.
— Sim— respondi. — De que se trata?
— Bom, minha senhora, nós temos uma política de licença de saída durante o Natal para prisioneiros com bom comportamento. Eles têm de ter um lugar para onde ir e um adulto responsável tem de assinar a autorização da sua saída. O Mike Preston pediu-nos para tentar este nome e este número.
— Só um segundo— respondi, e partilhei a informação com Thomas. — Porque é que o Mike não liga aos pais? E, já agora, porque é ele está na cadeia?— perguntei.
— Os pais mudaram-se para o Wyoming. É uma longa história — disse Thomas, enquanto se sentava direito no sofá.
Depois de uma breve conversa com ele e com o agente, vimo-nos de repente à espera de mais um hóspede.
O meu marido, Max, e o meu filho Thomas saíram para ir buscar Mike na altura em que uma neve muito levezinha começava a cair, e eu subi as escadas para verificar se tínhamos cobertores suficientes e toalhas para mais uma pessoa. Relanceando os olhos pelo pequeno quarto do Thomas, pensei “Vai ficar sobrelotado, mas será muito mais aconchegante do que a cela de uma prisão.” Thomas, Mike e Pete, o nosso futuro genro, teriam apenas de decidir entre a cama ou os sacos de dormir. Quando voltei para baixo, as meninas tinham já acrescentado mais um lugar à longa mesa, e estavam a conversar e a rir enquanto faziam panquecas.
Enquanto tentava encontrar algum dinheiro na carteira, perguntei:
— Será que alguém pode ir depressa ao Walmart e arranjar um presente para o Mike? Parece-me que talvez lhe desse jeito um desodorizante ou roupa interior.
— Oh, mãe, isso não são prendas— respondeu Beth, pegando no dinheiro, e dando-me um beijo meigo na cara. — Vamos lá, pessoal, peguem nas vossas carteiras. Vamos fazer compras práticas e DIVERTIDAS!
O jantar foi bem mais tarde do que estava planeado, mas a casa parecia rebentar de diversão e alegria quando nos sentámos à volta da mesa para a tradicional ceia de véspera de Natal, com linguiça, panquecas e morangos. As luzes das velas refletiam-se nos olhos brilhantes e felizes e nas lágrimas que rolavam pela face de Sim. Apertei a mão dela e murmurei:
— Vai correr tudo bem.
A Missa da Meia-Noite pareceu-me especialmente santa naquela noite, rodeada que estava pela minha família, além de uma futura mãe e um viajante “perdido”. Na manhã seguinte, Mike fingiu dormir, para que pudéssemos todos ter um Natal “em família”. Quando o soalho da sala de estar estava coberto de embrulhos e laços, e as miúdas experimentavam as suas prendas novas, Thomas sentou-se a meu lado e colocou um braço musculado sobre o meu ombro.
— Mãe, ficarias muito magoada se voltássemos a embrulhar o meu casaco e o déssemos ao Mike?
— Oh querido, as meninas fizeram tudo para ele poder receber duas prendas bem bonitas, e tu precisas tanto do casaco! O teu blusão já está a rebentar pelas costuras.
— Podes arranjar-me outro em qualquer lado, antes de eu regressar à escola. O Mike nem sequer tinha uma camisola para o aquecer quando o fomos buscar ontem — respondeu ele.
Dei um abraço ao meu filho e fui procurar fita adesiva para embrulhar de novo o casaco. Mais tarde, observei a neve que caía lá fora, enquanto ouvia os sons reconfortantes da família. Max juntou-se a mim, colocou um braço em torno da minha cintura e reparou nos meus olhos cheios de lágrimas.
— Estás bem?— perguntou.
— Completamente maravilhada. Sinto-me cumulada de bênçãos e presentes dos nossos filhos. Conhecem realmente o verdadeiro significado do Natal! — respondi, com os olhos a brilhar.
Gerri Wetta-Hilger
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
José e o porquinho-da-índia
Desde os seis anos que José ansiava ter um porquinho-da-Índia, mas, de cada vez que começava a falar do assunto, a mãe dizia imediatamente:
— Os porquinhos-da-Índia cheiram mal.
Ou:
— O lugar dos porquinho-da-Índia é no Parque Biológico.
Ou:
— Pobre bichinho, numa casa tão pequena…
E coisas semelhantes…
Nesse ano, José tinha jurado a si mesmo que o seu desejo iria finalmente realizar-se.
— Apostas em como recebo um porquinho-da-Índia pelo Natal? — disse ao seu amigo Tiago. — Vais ver…
E arranjou um plano.
Finalmente chegou dezembro.
— Já só faltam 24 dias para o Natal — disse a mãe. — É altura de colocares à janela a tua carta para o Pai Natal.
José assentiu, mostrando uma expressão o mais inocente possível, e começou a tarefa.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
BUDA IMPEDE UMA GUERRA
Certa vez, Buda impediu uma guerra iminente entre os Shakyas e os Kolis.
No rio Rohini, que separava as cidades de Kapilavastu e Koli, tinha sido construída uma barragem que permitia àqueles dois povos irrigarem os seus campos. Acontece que houve uma grande seca e que os agricultores de ambos os lados do rio reclamaram como seu o direito de utilizarem a pouca água que restava. Insultaram-se da pior maneira. O litígio, em muito exagerado pelos rumores que circulavam de ambos os lados, chegou aos ouvidos dos monarcas reinantes e levou a uma declaração de guerra. Os exércitos dos Shakyas e dos Kolis acamparam face a face em margens opostas do rio.
Nesta altura, apercebendo-se do que se estava a passar, Buda deslocou-se até ao campo de batalha. Os Shakyas baixaram as armas, em sinal de respeito por aquele a quem consideravam a joia da sua raça, e os Kolis fizeram o mesmo. Buda perguntou se estavam ali reunidos para celebrar um festival da água. Quando lhe disseram que se tratava de uma guerra, Buda quis saber a causa do conflito. Os príncipes disseram que não sabiam e foram perguntar aos generais. Estes, por sua vez, perguntaram aos oficiais subalternos. As perguntas continuaram até chegar aos agricultores que tinham dado origem ao conflito.
Quando finalmente soube a causa da disputa, Buda perguntou qual era o valor da água. Disseram-lhe que era pequeno. Buda perguntou, então, qual era o valor dos homens. Foi-lhe respondido que era enorme.
─ Porque querem esbanjar o que é de tão grande valor, por causa do que é de tão pouco?
Este argumento foi o suficiente para convencer as fações a desistirem da guerra.
Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Palavras Andarilhas despedem-se até 2016
A edição de 2014 começou e terminou com a participação de dois amigos de longa data. Respetivamente o Prof. Martinho Marques e o Jorge Serafim.
É sem dúvida, um previlégio imenso ter amigos destes. Um abraço para os dois.
Também é sem dúvida um previlégio poder ter contribuído, embora de forma singela, para o sucesso deste grande evento que projeta o nome de Beja além fronteiras.
Para mais tarde recordar aqui ficam alguns mementos.
Até 2016.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Desaposentar-se!
O homem chegou à praça com um martelo. Endireitou a estaca de uma muda de árvore, firmou-a melhor no solo com a ajuda da ferramenta e prendeu a planta à estaca. Em seguida afastou-se, como que para contemplar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
— O senhor pertence à câmara?
— Não, pertenço à Alice. É minha mulher há quarenta e dois anos.
— Foi o senhor que plantou essa muda?
— Não, foi a câmara. Caiu uma árvore velha e plantaram esta nova. Mas, como o fizeram sem cuidado, eu coloquei-lhe uma estaca e adubei-a. Agora está cheia de folhinhas novas e rego-a todas as tardes.
— Vê-se que gosta de plantas…
— Gosto de plantas, de animais, até gosto de pessoas.
— Obrigado pela parte que me cabe…
O homem sorriu, tirou uma tesoura enorme da cinta e começou a podar um arbusto.
— O senhor é aposentado? — quis eu saber.
— Não, sou desaposentado — respondeu, brincalhão.
Logo a seguir, começou a explicar-me o trocadilho enquanto podava.
— Sabe, quando me reformei, já tinha visto muitos colegas aposentarem-se e definharem, como se fossem árvores regadas com ácido de bateria. Sabia que há comerciantes que regam plantas com ácido de bateria com medo de que elas cresçam e encubram a fachada da loja? Depois ficam com a montra queimada pelo sol…
Picotou os galhos podados, que formaram um tapete de folhas em redor do arbusto, e continuou:
— Isto faz bem à terra. Tudo o que vem da terra deve voltar à terra. Alguns desses meus colegas enfiavam os chinelos e sentavam-se diante da televisão durante todo o dia. Outros iam até ao café beber cerveja ou dormiam toda a tarde. Engordaram tanto que acabaram por ter derrames cerebrais ou enfartes. Era uma vida passada a não fazer nada e a falar constantemente de doenças…
Cortou algumas flores e compôs um ramo.
— É para a minha mulher. Apesar de ser um ano mais velha do que eu, parece uma menina sempre que recebe flores. A Alice também está reformada, mas ajuda a cozinheira da escola da nossa neta a fazer doces com pouco açúcar e a aproveitar os legumes que antes deitavam fora para fazer salgadinhos. Além de dar uma mãozinha na creche e no hospital. Como passa a vida a ajudar os outros, nem tem tempo para pensar em doenças…
Amarrou o ramo com um fio de erva e pousou-o num banco com cuidado.
— Sempre que preciso de regar, tenho de ir buscar água a casa. Pedi à câmara que colocasse uma torneira no jardim, mas disseram que as pessoas iam deixar a torneira a verter depois de beber água. Disse-lhes que lhe pusessem uma grade e um cadeado e que eu tomaria conta da torneira. Recusaram, com o pretexto de haver um bem público controlado por um particular. Nessa altura, perguntei-lhes porque me deixavam cuidar da praça se não me deixavam cuidar de uma torneira. Quando me perguntaram quem me dera autorização, vim embora antes que mo proibissem. Ou que obrigassem a preencher formulários com três cópias…
Mudando de assunto, chamou a minha atenção para um pinheiro da praça.
— Está a ver aquele pinheiro fêmea? Foi a Alice que o plantou. Só havia um pinheiro macho, mas agora vai haver pinhões, porque ele vai polinizar o pinheiro fêmea.
— Eu nem sabia que havia pinheiros de dois sexos — comentei.
— Nem eu — confessou ele — mas tenho aprendido muito desde que cuido desta praça. Hoje sei quais são as épocas de floração de cada planta, conheço o canto de cada passarinho, e vejo a mudanças das estações como se fosse um filme.
— Mas ainda vai demorar a dar pinhões, não vai? — perguntei, olhando para a pinheirinha.
— Pressa é coisa que não tenho — assegurou ele. — A nossa neta ainda é pequenina e eu já lhe disse que era ela que ia colher os pinhões. Sem a câmara saber, claro… A Alice disse-lhe que ela teria de plantar um pinhão de cada pinha que colher. Assim, quando for velhinha, a nossa neta vai poder ver um pinhal inteiro plantado por ela.
— Sabe, acho admirável ver alguém da sua idade com tanta esperança! — comentei.
O homem sorriu e disse:
— Se é admirável ou não, não sei. Só sei que sabe bem. Agora, se me dá licença, tenho de ir buscar a Alice para caminharmos um pouco. A vida de um desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se não perdermos tempo com coisas inúteis!
Domingos Pellegrini
(Texto adaptado)
quinta-feira, 15 de maio de 2014
ABRAÇANDO A IMPERFEIÇÃO
Quando eu era criança, a minha mãe gostava de fazer, de vez em quando, um lanche à hora de jantar. Lembro-me especialmente de um desses lanches, feito por ela após um dia de trabalho muito cansativo.
A minha mãe colocou um prato com ovos, linguiça e torradas na mesa, diante do meu pai. As torradas estavam bastante queimadas e eu recordo-me de ficar à espera de que alguém reparasse nesse pormenor. O meu pai pegou numa torrada, sorriu para a minha mãe e perguntou-me como tinha corrido o dia na escola.
Não me lembro da resposta que dei, mas lembro-me do gosto com que ele comeu aquela torrada, depois de a barrar com manteiga e compota. Quando saí da mesa, a minha mãe pediu desculpa ao meu pai pelas torradas queimadas. Ouvi-o responder:
— Não te preocupes, querida. Eu adoro torradas queimadas.
Quando, mais tarde, fui dar um beijo de boas-noites ao meu pai, perguntei-lhe se tinha gostado realmente da torrada queimada. Respondeu de um forma que nunca esquecerei:
— Filho, a tua mãe teve hoje um dia de trabalho muito cansativo e estava exausta. Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém. A vida está cheia de imperfeições e não há pessoas perfeitas. Eu também não sou um cozinheiro perfeito e nem sequer um funcionário perfeito…
Ao longo dos anos, tenho constatado e aprendido que, uma das chaves mais importantes para estabelecer relações saudáveis e duradouras, é saber aceitar as imperfeições dos outros.
Autor Desconhecido
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Unidos na esperança
Nasci no sul do Sudão, onde vivia com os meus pais, os meus avós e duas irmãs, numa pequena casa feita de lama e colmo. A minha família era considerada abastada, porque o meu pai possuía muitas cabeças de gado.
Quando eu era criança, tinha medo de animais grandes.
— Sou demasiado pequeno para tomar conta de animais tão grandes! — exclamei, no dia em que o meu pai disse que teria de aprender a cuidar do gado.
Mas o meu pai sorriu e animou-me:
— Garang, sê corajoso. Tens um coração e uma cabeça fortes. Não há nada que não consigas fazer.
Quando fiz oito anos, comecei, sozinho, a tomar conta de algumas pequenas vitelas. Limpava-as, cuidava delas quando estavam doentes, conduzia-as às melhores pastagens e bebedouros. Rapidamente aprendi a amar os animais.
Mal sabia que a minha vida iria mudar completamente.
terça-feira, 4 de março de 2014
As rosas dos meus tapetes
Para um jovem refugiado que vive com recordações de perda e de terror, o tempo é medido em termos do próximo balde de água, do próximo pedaço de pão, e da próxima chamada para a oração. Aqui, onde tudo — paredes, chão, pátio — é feito de lama, o coração de um rapazinho ainda consegue ansiar por liberdade, independência e segurança. E aqui, onde a vida é extremamente frágil, é a necessidade que cria a força para resistir. Mas a força para sonhar vem do interior.
É sempre o mesmo. Os jatos já me viram. Estou a correr demasiado devagar, porque tenho de puxar pela minha mãe e pela minha irmã. O terreno é traiçoeiro, cheio de crateras de bombas, e a minha mãe e a minha irmã impedem-me de avançar. Fui atingido em cheio. Quando estou prestes a morrer, ou pouco depois de ter morrido, acordo....
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
A América fica longe?
Vivia-se bem na nossa aldeia até àquela noite de outubro em que os soldados vieram. A minha mãe escondeu-nos, à minha irmã e a mim, debaixo da cama. Quando espreitei para ver o que se passava, apenas vi os pés da minha mãe enfiados nos chinelos pretos e as botas grandes e lamacentas dos soldados.
Depois de saírem, o meu pai disse:
— Temos de partir já.
— Porquê? — perguntei.
O meu pai não nos deixava levar nada à excepção de uma muda de roupa. A minha mãe indignou-se:
— Vou ter de deixar todas as minhas coisas? A cadeira onde embalei os nossos filhos, a coberta que a minha mãe fez, ponto por ponto?
— Não levamos nada — tornou o meu pai. — Apenas o dinheiro para comprar a passagem para a América.
A palavra “América” não me era desconhecida, pois tinha ouvido os meus pais murmurá-la em noites inquietas. Seria esse, então, o nosso destino?
Nessa noite, vi pessoas a caminhar em silêncio pelas ruas recônditas e barcos junto ao cais, a balançar na água escura, enquanto homens falavam em segredo e o ouro passava de bolso em bolso.
— Preciso da tua aliança — disse o meu pai à minha mãe. — E das tuas granadas.
Sem dizer palavra, a minha mãe tirou o anel do dedo e o colar de granadas da bolsinha onde o guardava, depositada no fundo da trouxa que fizera.
O meu pai disse que partiríamos de noite.
— Quantos dias faltam para chegar à América? — perguntou a minha irmã.
— Não muitos — respondeu o meu pai. — Não tenhas medo! — sossegou-a.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
ASAE no Alentejo...
Um agente da ASAE vai a uma propriedade e diz ao dono, um velho agricultor:
- "Preciso inspeccionar a sua propriedade. Há uma denúncia de plantação ilegal."
O agricultor diz:
-"Ok, inspeccione o que quiser, mas não vá àquele campo ali."
E aponta para uma determinada área.
O agente da ASAE diz indignado:
- "O senhor sabe que tenho o poder da autoridade comigo?" E tira do bolso um crachá mostrando ao agricultor:
- "Este crachá dá-me a autoridade de ir onde quero.... e entrar em qualquer propriedade. Não preciso pedir ou responder a nenhuma pergunta. Está claro? Fiz-me entender?"
O agricultor, muito educado, pede desculpa e volta para o que estava a fazer.
Poucos minutos depois, ouve uma gritaria e vê o agente de autoridade a correr para salvar a sua própria vida, perseguido pelo Asdrúbal, o maior touro da quinta.
A cada passo o touro vai chegando mais perto do agente, que parece que será apanhado antes de conseguir alcançar um lugar seguro. O agente está apavorado.
O agricultor larga as ferramentas, corre para a cerca e grita com todas as forças de seus pulmões:
- "O Crachá, mostre-lhe o CRACHÁ!"
- "Preciso inspeccionar a sua propriedade. Há uma denúncia de plantação ilegal."
O agricultor diz:
-"Ok, inspeccione o que quiser, mas não vá àquele campo ali."
E aponta para uma determinada área.
O agente da ASAE diz indignado:
- "O senhor sabe que tenho o poder da autoridade comigo?" E tira do bolso um crachá mostrando ao agricultor:
- "Este crachá dá-me a autoridade de ir onde quero.... e entrar em qualquer propriedade. Não preciso pedir ou responder a nenhuma pergunta. Está claro? Fiz-me entender?"
O agricultor, muito educado, pede desculpa e volta para o que estava a fazer.
Poucos minutos depois, ouve uma gritaria e vê o agente de autoridade a correr para salvar a sua própria vida, perseguido pelo Asdrúbal, o maior touro da quinta.
A cada passo o touro vai chegando mais perto do agente, que parece que será apanhado antes de conseguir alcançar um lugar seguro. O agente está apavorado.
O agricultor larga as ferramentas, corre para a cerca e grita com todas as forças de seus pulmões:
- "O Crachá, mostre-lhe o CRACHÁ!"
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Ainda há espaço para a alegria?
O ano que agora começa não vai ser propriamente um tempo festivo. Por isso, poderá parecer ao leitor que este tema é uma dolorosa provocação. Mas não é: falo muito a sério.
A alegria é um sentimento sem o qual os humanos não podem viver. Mesmo na noite mais escura, em que a dor, o sofrimento e o choro encharcam a nossa alma, se não encontrarmos um espaçozinho para a verdadeira alegria, dificilmente suportaremos tal situação.
É claro que há várias formas de alegria e nem todas produzem esse efeito libertador.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
GENGIS KHAN
Com a sua armadura reluzente.
Os seus pés levantam ondas de poeira
E ninguém ousa fitá-lo de frente.
Na sua couraça quebram-se as lanças inimigas
E um gesto seu põe em fuga um exército inteiro
… Mas não pode dobrar-se para apanhar uma flor
Nem coçar as costas, o poderoso cavaleiro.
Álvaro Magalhães
O reino perdido, 2000
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
O rei Índio ou A lenda do quarto Rei Mago
Muita gente, grandes e pequenos, conhece a história dos três Reis Magos. Mas a que se vai contar agora do chefe índio Lua de Prata é muito menos conhecida.
Lua de Prata vivia no sopé de uma montanha na longínqua América. Certa noite, viu no céu uma estrela branca a arrastar uma cauda de pó de ouro. Lua de Prata conhecia bem as estrelas do céu, mas nunca antes vira algo semelhante. Reuniu o seu povo e falou-lhes:
— Nasceu uma nova estrela. Tenho a certeza de que é a estrela de um grande rei. Quero partir para lhe prestar homenagem.
Levou muitos presentes consigo. Três lamas foram carregadas com jarros cheios de água, azeite e mel. Também carregavam pão de milho e carne seca, uma valiosa pulseira de jade, uma bolsa com grãos de ouro e uma capa quente de tecido colorido.
— Adeus! — despediu-se Lua de Prata.
O seu irmão, Cervo Veloz, deu-lhe ainda um conselho:
— Não olhes para a esquerda, não olhes para a direita e não te importes com nada, ou não chegarás nunca ao teu destino.
Mas a mãe retirou do pescoço um adorno com uma pérola brilhante e disse, colocando-o ao pescoço de Lua de Prata:
— Este é a minha joia de casamento. Lembra-te que deves ajudar todo aquele que precisar da tua ajuda.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Primeiro de Agosto Primeiro de Inverno
E lá se cumpriu o ditado. Hoje. Aqui, neste Cantinho que Manuel da Fonseca Imortalizou na sua obra "Seara de Vento".
quinta-feira, 30 de maio de 2013
É Preciso...!
A criança ali estava, sentada na sua ilha.
Olhava para o mundo e pensava.
A criança viu as guerras.
E disse para consigo: é preciso pintar as fardas dos soldados.
É preciso, dos canos das espingardas,
fazer poleiros para os pássaros e flautas de pastor.
A criança viu a fome.
E disse para consigo: é preciso prender as nuvens com um laço
e fazê-las lançar chuva sobre os desertos.
É preciso abrir ribeiros de água e de leite.
A criança viu a miséria.
E disse para consigo: é preciso aprender a somar,
a subtrair, a multiplicar e depois a dividir.
É preciso aprender a partilhar o dinheiro, o pão, o ar e a terra.
A criança viu os poderosos a dar ordens, a clamar, a decretar.
E disse para consigo: é preciso abrir-lhes os olhos
ou então pô-los dali para fora.
A criança viu o oceano.
E disse para consigo: é preciso lavá-lo
e depois olhá-lo e… sonhar.
A criança viu as florestas.
E disse para consigo: é preciso aventurar-se e nelas escrever histórias,
deitar-se no chão coberto de musgo…a ouvi-las.
A criança viu as lágrimas.
E disse para consigo: é preciso aprender a abraçar-se,
a não ter medo dos beijos.
É preciso aprender a dizer “gosto de ti.”
A criança ergueu a cabeça.
Viu a lua com uma bandeira espetada na testa.
Que ultraje!
E disse para consigo: é preciso tirá-la de lá e pedir-lhe perdão.
Por fim, da sua ilha, a criança olhou para o mundo pela última vez.
E depois decidiu…
… NASCER.
Thierry Lenain ; Olivier Tallec
Il faudra
Paris, Éd. Sarbacane, 2004
(Tradução e adaptação)
domingo, 2 de dezembro de 2012
O Natal em que fiquei rica...!
Ser pobre e satisfeito é ser rico. E bastante rico.
Havia uma árvore naquele Natal. Não tão grande e frondosa como outras, mas estava pejada de enfeites e tesouros e resplandecia de luzes. Havia presentes, também. Alegremente embrulhados em papel vermelho ou verde, com etiquetas coloridas e fitas. Mas não tantos presentes como de costume. Eu já tinha reparado que a minha pilha de presentes era muito pequena.
Nós não éramos pobres. Mas os tempos eram difíceis, os empregos escassos, o dinheiro à justa. A minha mãe e eu partilhávamos uma casa com a minha avó e com os meus tios. Naquele ano da Depressão, toda a gente espaçava refeições, levava sanduíches para o trabalho e ia a pé para poupar nos bilhetes de autocarro. Anos antes da Segunda Guerra Mundial, já vivíamos no dia-a-dia, como muitas outras famílias, o que então se iria ouvir como slogan: “Usa-o, aproveita-o ao máximo; faz com que funcione, ou passa sem ele.”
Havia poucas escolhas. Compreendia pois porque era tão pequeno o meu monte de presentes. Compreendia, mas sentia, ainda assim, uma ponta de pesar à mistura com um complexo de culpa. Sabia que não poderia haver surpresas empolgantes naquelas poucas caixas vistosamente embrulhadas. E sabia que uma delas tinha um livro. A minha mãe arranjava sempre um livro para mim. Mas nada de vestidos novos, camisolas ou um roupão acolchoado e quentinho. Nenhum dos miminhos tão desejados na altura do Natal…
Havia uma caixa com o meu nome da parte da minha avó. Guardei-a para o fim. Talvez fosse uma camisola nova, talvez um vestido — um vestido azul. A minha avó e eu gostávamos ambas de lindos vestidos e de todas as tonalidades de azul. Soltando os devidos “Ohs” e “Ahs” ao ver a aromática barra de sabonete feito de mel, as luvas vermelhas, o já esperado livro (um novo da Nancy Drew!), rapidamente cheguei àquele último embrulho. Dei por mim a sentir uma centelha do entusiasmo do Natal… Era uma caixa bastante grande. Com vergonha de mim mesma por ser tão gananciosa, por esperar receber um vestido ou uma camisola (mas esperando na mesma!), abri a caixa.
Meias! Só meias! Soquetes, meias altas, até mesmo um par daquelas meias horrorosas de algodão branco que estavam sempre a escorregar e se enrodilhavam em volta dos joelhos.
Esperando que ninguém tivesse dado conta do desapontamento, peguei num dos quatro pares e agradeci à minha avó, com um grande sorriso. Ela também sorria. Não com o seu sorriso educado e distraído de “Sim, querida,” mas com o seu sorriso feliz e radiante, de “Isto são coisas importantes para uma mulher!” Será que me esquecera de alguma coisa? Olhei de novo para a caixa no chão — nada, a não ser as meias. Só que agora eu conseguia ver que havia outro par por debaixo do que eu tinha pegado. Duas camadas de meias. E mais uma!Três camadas de meias!
A sorrir de verdade, comecei a retirá-las da caixa. Meias cor-de-rosa, meias brancas, meias verdes, meias de todos os tons inimagináveis de azul. Toda a gente estava a olhar, rindo comigo, enquanto eu atirava as meias ao ar e as contava. Doze pares de meias!
Levantei-me e dei um abraço tão apertado à minha avó que até nos doeu às duas. “Feliz Natal, menina Joan!” disse ela. “Agora, todos os dias, terás muitas escolhas a fazer. Estás rica, minha querida! ” E era verdade. Naquele Natal e durante todo o ano, todas as manhãs, eu escolhia do meu elegante armário da roupa interior qual o par de meias a usar. E sentia-me rica. E ainda sinto!
Mais tarde, a minha mãe disse-me que a minha avó tinha andado a esconder aquelas meias durante quase um ano — poupando todas as moedinhas, comprando um par de cada vez. Um dia, tendo visto um lindo par de meias azuis com as beiras elásticas bordadas à mão, ela pedira mesmo ao compreensivo vendedor para deixar um sinal a reservá-las durante três semanas.
Dentro daquela caixa estava embrulhado um ano de amor.
Foi um Natal que eu nunca esquecerei.
A prenda da minha avó mostrou-me como as pequenas coisas podem ser importantes.
E como o amor nos faz a todos imensamente ricos.
Joan Cinelli
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