terça-feira, 3 de junho de 2014

Dia Mundial do Ambiente - Eco|Festival 5 a 8|junho|14 - Beja


Feira da Saúde - 6 e 7|junho|14 - Baleizão


I Maratona Futsal "Ouriços Futsal Cup" Beja - 7 e 8|junho|14


XI Encontro de Culturas 6 a 10|jun|14 - SERPA



IV Torneio Infantil "O professor" - Alvito - 7|jun|14


sábado, 31 de maio de 2014

Diário do Alentejo edição 1675

Editorial
Parabéns!
Paulo Barriga

Este domingo correm precisamente
82 anos sobre
a primeira edição
do “Diário do Alentejo”. Foi a
1 de junho de 1932 que Carlos
Marques e António Manuel
Engana se lembraram de começar
a publicar em Beja um diário
vespertino. Uma aventura e
peras, diríamos a esta distância.
É que apenas três dias antes
da fundação do “DA” era enviado
para todos os jornais o
projeto de Constituição pensado
e redigido por António de
Oliveira Salazar. Um texto que
entraria em vigor em 1933 e
que viria a ser uma espécie de
carta de intenções do Estado
Novo. O primeiro governo liderado
por Salazar, aliás, tomaria
funções logo em julho de 1932.
Ano em que também é criada
a União Nacional, o único partido
autorizado em Portugal.
Por esse tempo, os Estados
Unidos da América lambiam,
ainda sem assinalável cura, as
feridas da Grande Depressão.
A Alemanha, humilhada pelas
reparações da Primeira
Grande Guerra, permitia a invenção
de Adolf Hitler, que chegaria
a chanceler em 1933. José
Estaline, na União Soviética,
continuava a sua purificação
das almas. O fascismo grassava
em Itália. Cadetes da marinha
e jovens da extrema-direita assassinavam
o primeiro-ministro
japonês. Não tardaria que,
mesmo aqui ao lado, a tenra
república espanhola eclodisse
na mais fratricida das guerras
civis de que há memória. E
é neste perfeito barril de pólvora
que surge o “Diário do
Alentejo”. Ainda para mais com
o intuito de levar aos seus leitores
um projeto editorial pluralista,
livre e isento. Por isso
mesmo, dizemos que foi uma
aventura e peras. E mesmo por
isso, numa altura em que passam
82 anos sobre a instituição
do jornal, não queremos deixar
de prestar homenagem aos
seus fundadores. Foi graças à
sua persistência, ousadia, visão
e integridade que hoje ainda
existimos. Isto, claro, para não
falar nas enormes vicissitudes
que o título passou ao longo da
sua já extensa vida. Muita coisa
mudou nestes 82 anos. Quase
tudo mudou, a bem dizer. Mas
há coisas que então, como hoje,
persistem. A dificuldade de
manter íntegro um jornal de referência
numa das mais empobrecidas
regiões do País é uma
delas. Outra é a estima e o respeito
e a dedicação que ao longo
de todos estes anos sempre nutrimos
pelos nossos leitores, assinantes
e anunciantes. Nesta
data querida, os parabéns são
para vocês!

Centros IEFP estão à procura de 750 professores

Na passada quinta-feira, o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) abriu concurso para um total de 750 professores dos quadros, do ensino básico e secundário, que estejam interessados em lecionar entre 2014 e 2015 nos centros do território continental.
 
O anúncio foi feito nos sites do IEFP e da Direção-Geral da Administração Escolar, onde é possível encontrar o mapa de necessidades dos centros por delegação regional, bem como um manual de instruções para manifestar o interesse em concorrer a uma das vagas através da plataforma eletrónica disponibilizada para o efeito.
 
Os três grupos de recrutamento que apresentam um maior número de vagas disponíveis são Português, Inglês e Matemática. Já por delegações regionais, há 229 vagas disponíveis no Norte, 135 no Centro, 226 em Lisboa e Vale do Tejo, 99 no Alentejo e 61 no Algarve.
 
"Para o ano escolar 2014/2015, o IEFP pretende requisitar docentes de carreira dos diversos grupos de recrutamento, para garantir o desenvolvimento das componentes de formação de base, sociocultural e científica, na sua rede de centros", lê-se no convite à manifestação de interesse por parte dos docentes.
 
O mesmo acrescenta que "a requisição de docentes visa, nomeadamente, assegurar o exercício transitório de tarefas em qualquer serviço da administração central, regional ou local".
 
Não admitindo docentes contratados, as condições exigidas dos quadros interessados passam pela pertença a um grupo de recrutamento para o qual o IEFP tenha aberto vagas, assim como a disponibilidade para "lecionar no mínimo 22-25 horas".
 
Os docentes selecionados deverão comparecer a uma entrevista no IEFP e apresentar-se levando consigo uma declaração comprovativa da sua situação profissional emitida pela escola.
 
Os candidatos admitidos a ocupar as vagas poderão ter de dar formação noutros locais que não os centros onde sejam colocados, ainda que "situados nas respetivas áreas geográficas de intervenção".
 
Os interessados em ocupar estes lugares têm até 28 de Maio para manifestar o seu interesse através da plataforma eletrónica. No dia seguinte, a Direção-Geral da Administração Escolar deve elaborar as listas de candidatos e enviá-las ao IEFP, que fica depois responsável pelo processo de entrevistas, a decorrer entre 2 e 6 de Junho.
 
Entre 9 e 11 de Junho o IEFP deverá informar os docentes selecionados de que foram os escolhidos para ocupar os lugares, sendo que o processo de requisição ao Ministério da Educação e Ciência decorre entre 12 e 18 de Junho.
 
Os docentes iniciam atividade no IEFP a 1 de Setembro, mantendo o vínculo ao executivo, as mesmas condições remuneratórias e contagem de tempo de serviço. Ficam igualmente sujeitos ao processo de avaliação de desempenho, de acordo com o definido no Estatuto da Carreira Docente.

Saiba mais AQUI.


Fonte :- http://boasnoticias.sapo.pt/

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Uma flor chamada Poesia




Eu vi a corola abrir a porta
E dobrar o caule.
Sentou-se à minha frente
Com as sépalas sobre a mesa
Como se fosse uma princesa.
Puxou um balde de água
Para molhar a raiz dos sonhos.
Abanou uma abelha para longe
E começou a estremecer
Como se estivesse a escrever.
Sou uma flor sem nome
Não venho no dicionário
Não há retrato meu pelos jardins
Mas estou aqui real e concreta
Qual é o meu nome, ó poeta?
E não é que uma borboleta
Lhe sai de dentro da cor
Para desenhar a pólen
O nome que ela queria?
Como é bom uma flor chamar-se
Poesia!



José Alberto Marques
Carta a um Jovem antes de ser Poeta
Porto, Ed. Campo das Letras, 2002

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Vamos à Espiga?


Diário do Alentejo Edição 1674


Editorial
Europa
Paulo Barriga

Em 1986 andava eu tão deslumbrado
com a beleza dela,
como fascinado andou Zeus
assim que soube da sua existência.
A cegueira atingiu de tal forma
o pai dos deuses e dos homens que
habitaram a Grécia antiga, que o levou
a disfarçar-se de touro, para
raptar e para tomar para si a mais
bela de entre as belas: Europa. Já
os meus 18 anos não deram para
tanto. Deram para cantarolar com
entusiasmo o “Portugal na CEE”,
dos GNR. E deram para pensar que,
apesar de não ter caparro para fugir
com a Europa às costas, ela ali
estava, bela e disponível, para me
levar a mim e a todos nós ao colo.
Que maravilha. Que prodígio. Que
magnificência. O primeiro grande
contacto que tive com ela, com a
Europa, foi logo nos primeiros tempos
da sua chegada a Portugal. A
Europa ofereceu-me um fato-de-
-macaco, um subsídio e nove meses
de gestação de um curso de soldador
profissional, que decorreu em
pavilhões novos mandados construir
em Beja pela firma “Irmãos
Luzias”. Que tempos tão eufóricos.
Pelas mãos da Europa estava eu a
aprender uma profissão de futuro
e ainda por cima me pagavam para
tal. Bom, mas o futuro da minha
profissão de futuro não se mostrou
assim com tanto futuro quanto isso.
Mas logo a boa Europa se chegou ao
pé de mim, agora pela voz de um
trabalhador agrícola sindicalista,
que me aconselhou outra profissão
de futuro: tratorista. Ninguém,
como a Europa, teria tamanha sapiência
e visão. Tratorista. Bem bom,
pensei. E lá me deram outro fato-
-de-macaco, novo subsídio e a possibilidade
de conduzir durante seis
meses um caquético trator Ford,
que há muitos anos estava estacionado
e calado num casão que a reforma
agrária tinha na Salvada.
Ainda hoje guardo a carta de tratorista
como prova do grande amor
que por mim a Europa, naquela altura,
nutria. Tudo isto fazia sentido.
Muito sentido. O Portugal atrasado
e acabrunhado estava agora de fato-
-de-macaco, em formações remuneradas.
Enquanto os agentes produtivos
do País eram aconselhados a
não obrar, salvo seja, numa espécie
de set-aside global. Tudo em nome
da Europa que, para todos nós, augurava
um destino radioso. Uma
espécie de colónia, de parque natural
com indígenas pacíficos e tudo,
onde chegaria dinheiro para gastar
nos bens da própria Europa e, na
falta dele, dinheiro irreal vindo dos
bancos da mesma Europa. E cá nos
vemos chegados, como Zeus chegou
a Creta com a Europa às costas.
Literalmente. Mas com um grande
dilema, pelo menos da minha
parte: no domingo, quando reencontrar
a Europa na cabine de voto,
não sei que fato-de-macaco usar. O
amarelo-torrado de soldador? Ou o
azul-petróleo de tratorista?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Desaposentar-se!

 
O homem chegou à praça com um martelo. Endireitou a estaca de uma muda de árvore, firmou-a melhor no solo com a ajuda da ferramenta e prendeu a planta à estaca. Em seguida afastou-se, como que para contemplar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
— O senhor pertence à câmara?
— Não, pertenço à Alice. É minha mulher há quarenta e dois anos.
— Foi o senhor que plantou essa muda?
— Não, foi a câmara. Caiu uma árvore velha e plantaram esta nova. Mas, como o fizeram sem cuidado, eu coloquei-lhe uma estaca e adubei-a. Agora está cheia de folhinhas novas e rego-a todas as tardes.
— Vê-se que gosta de plantas…
— Gosto de plantas, de animais, até gosto de pessoas.
— Obrigado pela parte que me cabe…
O homem sorriu, tirou uma tesoura enorme da cinta e começou a podar um arbusto.
— O senhor é aposentado? — quis eu saber.
— Não, sou desaposentado — respondeu, brincalhão.
 
Logo a seguir, começou a explicar-me o trocadilho enquanto podava.
— Sabe, quando me reformei, já tinha visto muitos colegas aposentarem-se e definharem, como se fossem árvores regadas com ácido de bateria. Sabia que há comerciantes que regam plantas com ácido de bateria com medo de que elas cresçam e encubram a fachada da loja? Depois ficam com a montra queimada pelo sol…
Picotou os galhos podados, que formaram um tapete de folhas em redor do arbusto, e continuou:
— Isto faz bem à terra. Tudo o que vem da terra deve voltar à terra. Alguns desses meus colegas enfiavam os chinelos e sentavam-se diante da televisão durante todo o dia. Outros iam até ao café beber cerveja ou dormiam toda a tarde. Engordaram tanto que acabaram por ter derrames cerebrais ou enfartes. Era uma vida passada a não fazer nada e a falar constantemente de doenças…
Cortou algumas flores e compôs um ramo.
— É para a minha mulher. Apesar de ser um ano mais velha do que eu, parece uma menina sempre que recebe flores. A Alice também está reformada, mas ajuda a cozinheira da escola da nossa neta a fazer doces com pouco açúcar e a aproveitar os legumes que antes deitavam fora para fazer salgadinhos. Além de dar uma mãozinha na creche e no hospital. Como passa a vida a ajudar os outros, nem tem tempo para pensar em doenças…
Amarrou o ramo com um fio de erva e pousou-o num banco com cuidado.
— Sempre que preciso de regar, tenho de ir buscar água a casa. Pedi à câmara que colocasse uma torneira no jardim, mas disseram que as pessoas iam deixar a torneira a verter depois de beber água. Disse-lhes que lhe pusessem uma grade e um cadeado e que eu tomaria conta da torneira. Recusaram, com o pretexto de haver um bem público controlado por um particular. Nessa altura, perguntei-lhes porque me deixavam cuidar da praça se não me deixavam cuidar de uma torneira. Quando me perguntaram quem me dera autorização, vim embora antes que mo proibissem. Ou que obrigassem a preencher formulários com três cópias…
 
Mudando de assunto, chamou a minha atenção para um pinheiro da praça.
— Está a ver aquele pinheiro fêmea? Foi a Alice que o plantou. Só havia um pinheiro macho, mas agora vai haver pinhões, porque ele vai polinizar o pinheiro fêmea.
— Eu nem sabia que havia pinheiros de dois sexos — comentei.
— Nem eu — confessou ele — mas tenho aprendido muito desde que cuido desta praça. Hoje sei quais são as épocas de floração de cada planta, conheço o canto de cada passarinho, e vejo a mudanças das estações como se fosse um filme.
— Mas ainda vai demorar a dar pinhões, não vai? — perguntei, olhando para a pinheirinha.
— Pressa é coisa que não tenho — assegurou ele. — A nossa neta ainda é pequenina e eu já lhe disse que era ela que ia colher os pinhões. Sem a câmara saber, claro… A Alice disse-lhe que ela teria de plantar um pinhão de cada pinha que colher. Assim, quando for velhinha, a nossa neta vai poder ver um pinhal inteiro plantado por ela.
— Sabe, acho admirável ver alguém da sua idade com tanta esperança! — comentei.
 
O homem sorriu e disse:
— Se é admirável ou não, não sei. Só sei que sabe bem. Agora, se me dá licença, tenho de ir buscar a Alice para caminharmos um pouco. A vida de um desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se não perdermos tempo com coisas inúteis!
 
Domingos Pellegrini

(Texto adaptado)