sábado, 13 de dezembro de 2014
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Diário do Alentejo Edição 1703
Editorial
Milhões
Paulo Barriga
É o sexto ano consecutivo
que a Porto Editora propõe,
por estas alturas do calendário,
um concurso para encontrar
a palavra do ano. Bem sabemos
que “as palavras não enchem
a barriga”, mas à falta de melhor
alimento sempre podem distrair
a fome. Ou a alma. Os promotores
da competição selecionaram
para a final dez das palavras
que, supostamente, mais marcaram
o ano mediático de 2014.
São elas: “banco”, “basqueiro”,
“cibervadiagem”, “corrupção”,
“ébola”, “legionela”, “gamificação”,
“jihadismo”, “selfie” e “xurdir”.
Observando agora mesmo
a reação do corretor ortográfico
às palavras propostas pela Porto
Editora, excluindo “ébola”, reparo
no desagrado (ou desconhecimento)
que o meu revisor eletrónico
usa face a quase todos os outros
vocábulos. Apenas “banco”,
“corrupção” e “xurdir” escapam à
sua desaprovação, que é manifestada
por um irritante sublinhado
vermelho. Esta máquina ou não
está para neologismos ou então
está com vontade, ela própria, de
comunicar. De desabafar. De desembuchar,
pensei eu. E, de facto,
não deixa de ser curioso que, no
preciso dia em que houve maratona
na Assembleia da República
para escutar o “jihadismo” financeiro
do “dono disto tudo” e do
“primo do dono disto tudo”, um
dos termos que o meu interlocutor
cibernético toma como bom é
precisamente “banco”. E, logo depois,
“corrupção”. “Corrupção”
e “banco”. Voltando às audições
dos Espírito Santo no Parlamento,
por muito tortos que tenham estado
um perante o outro, se há
coisa que incrivelmente não ficou
na “selfie” do dia foi a ligação direta
entre “banco” e “corrupção”.
Quero dizer, ter ficado, ficou. Só
que, como nos policiais de fraco
enredo, o criminoso antecipadamente
anunciado foi o mordomo.
Sobre os milhões que desapareceram,
como desapareceram, onde
param, quem os arrecadou em
proveito próprio, nada. O que restou
desta inquirição ilusionista foi
outra palavra que merecia constar,
e não consta, do jogo das palavras
do ano: “milhões”. Nunca
se ouviu falar tanto em “milhões”,
ou melhor, “em milhares de milhões”
como na última terça-feira.
E o único significado que se reteve
sobre “milhões” foi: “qualquer
coisa que talvez tenha existido
na posse de alguém em parte incerta”.
Como bem sabemos, o advérbio
“talvez” indica uma forte
possibilidade. E essa forte possibilidade
está e continuará a recair
sobre quem tem de “xurdir”. Que
é a palavra a concurso que designa
“lutar pela vida”. Os computadores
são máquinas inteligentes.
Milhões
Paulo Barriga
É o sexto ano consecutivo
que a Porto Editora propõe,
por estas alturas do calendário,
um concurso para encontrar
a palavra do ano. Bem sabemos
que “as palavras não enchem
a barriga”, mas à falta de melhor
alimento sempre podem distrair
a fome. Ou a alma. Os promotores
da competição selecionaram
para a final dez das palavras
que, supostamente, mais marcaram
o ano mediático de 2014.
São elas: “banco”, “basqueiro”,
“cibervadiagem”, “corrupção”,
“ébola”, “legionela”, “gamificação”,
“jihadismo”, “selfie” e “xurdir”.
Observando agora mesmo
a reação do corretor ortográfico
às palavras propostas pela Porto
Editora, excluindo “ébola”, reparo
no desagrado (ou desconhecimento)
que o meu revisor eletrónico
usa face a quase todos os outros
vocábulos. Apenas “banco”,
“corrupção” e “xurdir” escapam à
sua desaprovação, que é manifestada
por um irritante sublinhado
vermelho. Esta máquina ou não
está para neologismos ou então
está com vontade, ela própria, de
comunicar. De desabafar. De desembuchar,
pensei eu. E, de facto,
não deixa de ser curioso que, no
preciso dia em que houve maratona
na Assembleia da República
para escutar o “jihadismo” financeiro
do “dono disto tudo” e do
“primo do dono disto tudo”, um
dos termos que o meu interlocutor
cibernético toma como bom é
precisamente “banco”. E, logo depois,
“corrupção”. “Corrupção”
e “banco”. Voltando às audições
dos Espírito Santo no Parlamento,
por muito tortos que tenham estado
um perante o outro, se há
coisa que incrivelmente não ficou
na “selfie” do dia foi a ligação direta
entre “banco” e “corrupção”.
Quero dizer, ter ficado, ficou. Só
que, como nos policiais de fraco
enredo, o criminoso antecipadamente
anunciado foi o mordomo.
Sobre os milhões que desapareceram,
como desapareceram, onde
param, quem os arrecadou em
proveito próprio, nada. O que restou
desta inquirição ilusionista foi
outra palavra que merecia constar,
e não consta, do jogo das palavras
do ano: “milhões”. Nunca
se ouviu falar tanto em “milhões”,
ou melhor, “em milhares de milhões”
como na última terça-feira.
E o único significado que se reteve
sobre “milhões” foi: “qualquer
coisa que talvez tenha existido
na posse de alguém em parte incerta”.
Como bem sabemos, o advérbio
“talvez” indica uma forte
possibilidade. E essa forte possibilidade
está e continuará a recair
sobre quem tem de “xurdir”. Que
é a palavra a concurso que designa
“lutar pela vida”. Os computadores
são máquinas inteligentes.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Diário do Alentejo Edição nº 1702
Editorial
Ressaca
Paulo Barriga
O Alentejo, o mundo alentejano, ainda não estará, por certo, recomposto da onda de euforia que se sucedeu à inscrição do cante na lista representativa do Património da Humanidade. Não é para menos. O cante é a mais ampla e agregadora expressão cultural do Alentejo. É algo que nasce pegado às pessoas, como se fosse uma segunda pele, sonora, necessária, fundamental. E por isso mesmo os membros do comité intergovernamental da Unesco terão selado com o carimbo “exemplar” a candidatura portuguesa. O tempo é de festa, ainda. Mas depois da farra virá a necessária ressaca. Esta elevação do cante a Património da Humanidade é apenas um passo, festivo e admirável como todos os primeiros passos, na longa caminhada que se lhe apresenta pela frente. Aliás, no documento final da admissão do cante à lista do Património Cultural Imaterial, os relatores são bastante assertivos a esse respeito. Sim, de facto, a candidatura apresentada em Paris satisfaz exemplarmente os critérios de inscrição. Que poderão ser revistos já daqui a três anos caso não se cumpra o plano de salvaguarda enunciado na própria candidatura. E nessas medidas de salvaguarda, o documento é muito claro em relação a elas, passam pelo reforço da promoção deste “bem” através de exposições, espetáculos, programas educativos e, acima de tudo, reuniões entre os vários “detentores” deste património, por forma a partilhar os diferentes conhecimentos sobre o cante. Ou seja: a candidatura do cante foi aceite, em parte, porque revelava um compromisso das comunidades e dos grupos corais na implementação do plano de salvaguarda. Por outras palavras: esta candidatura terá validade desde que, a partir de agora, todos os agentes no território se comprometam a cantar em uníssono e não em capelinhas, com protagonismos saloios, birras e amuos, como até aqui, de alguma forma, tem acontecido. E este compromisso de união poderá ser o primeiro tapete de espinhos no caminho do cante enquanto património de toda a humanidade. Outra fator importante prende-se com o papel do Estado na implementação do plano de salvaguarda do cante. Diz o comité da Unesco que o Estado está “implicado” no seu financiamento. E aqui a porca pode voltar a torcer o rabo. Bem sabemos como o Estado de proximidade, as autarquias locais, aquelas que mais vizinhas são do cante e melhor o sentem, estão descapitalizadas. E ainda melhor sabemos o trato que o Estado central tem dado nos últimos anos às regiões periféricas e à cultura. Há falta de um governo territorial, regionalizado, é de bom-tom principiarmos todos, em conjunto, como exige a Unesco, a curar a ressaca da festa e a começar a olhar já sem embriaguez para o caminho. Que será longo e duro, embora estupendo se conseguirmos lá chegar. À essência do cante.
Ressaca
Paulo Barriga
O Alentejo, o mundo alentejano, ainda não estará, por certo, recomposto da onda de euforia que se sucedeu à inscrição do cante na lista representativa do Património da Humanidade. Não é para menos. O cante é a mais ampla e agregadora expressão cultural do Alentejo. É algo que nasce pegado às pessoas, como se fosse uma segunda pele, sonora, necessária, fundamental. E por isso mesmo os membros do comité intergovernamental da Unesco terão selado com o carimbo “exemplar” a candidatura portuguesa. O tempo é de festa, ainda. Mas depois da farra virá a necessária ressaca. Esta elevação do cante a Património da Humanidade é apenas um passo, festivo e admirável como todos os primeiros passos, na longa caminhada que se lhe apresenta pela frente. Aliás, no documento final da admissão do cante à lista do Património Cultural Imaterial, os relatores são bastante assertivos a esse respeito. Sim, de facto, a candidatura apresentada em Paris satisfaz exemplarmente os critérios de inscrição. Que poderão ser revistos já daqui a três anos caso não se cumpra o plano de salvaguarda enunciado na própria candidatura. E nessas medidas de salvaguarda, o documento é muito claro em relação a elas, passam pelo reforço da promoção deste “bem” através de exposições, espetáculos, programas educativos e, acima de tudo, reuniões entre os vários “detentores” deste património, por forma a partilhar os diferentes conhecimentos sobre o cante. Ou seja: a candidatura do cante foi aceite, em parte, porque revelava um compromisso das comunidades e dos grupos corais na implementação do plano de salvaguarda. Por outras palavras: esta candidatura terá validade desde que, a partir de agora, todos os agentes no território se comprometam a cantar em uníssono e não em capelinhas, com protagonismos saloios, birras e amuos, como até aqui, de alguma forma, tem acontecido. E este compromisso de união poderá ser o primeiro tapete de espinhos no caminho do cante enquanto património de toda a humanidade. Outra fator importante prende-se com o papel do Estado na implementação do plano de salvaguarda do cante. Diz o comité da Unesco que o Estado está “implicado” no seu financiamento. E aqui a porca pode voltar a torcer o rabo. Bem sabemos como o Estado de proximidade, as autarquias locais, aquelas que mais vizinhas são do cante e melhor o sentem, estão descapitalizadas. E ainda melhor sabemos o trato que o Estado central tem dado nos últimos anos às regiões periféricas e à cultura. Há falta de um governo territorial, regionalizado, é de bom-tom principiarmos todos, em conjunto, como exige a Unesco, a curar a ressaca da festa e a começar a olhar já sem embriaguez para o caminho. Que será longo e duro, embora estupendo se conseguirmos lá chegar. À essência do cante.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
sábado, 29 de novembro de 2014
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Diário do Alentejo Edição n.º 1701
Sócrates
Paulo Barriga
Existem duas coisas que derrubam
uma nação. Há duas
coisas, aliás, que derrubam
qualquer um. E por isso também
derrubam uma nação que, numa
definição ligeira, é apenas um conjunto
de muitos, que habitam um
mesmo local, falam a mesma língua
e que não têm tiques culturais
tão diferenciadores quanto isso. As
duas coisas que derrubam uma nação,
esse conjunto de muitos num
mesmo local, que no caso concreto
são os portugueses de Portugal:
a barriga e a cabeça. Cabendo à
barriga, em primeira instância, e
quem o diz é o povo, alentar a cabeça:
“barriga cheia, cara alegre”.
Ou, para quem goste de olhar antes
pelo ângulo negativo, “barriga vazia,
não tem alegria”. Neste ponto
pouco há dizer. Vai para quatro
anos que o pouco que apenas entrava
na barriga da Nação passou
a quase nada. Para nem falar que
“o quase”, em tantas barrigas deste
covil, deixou de acompanhar “o
nada”. Ausentando-se “do nada”,
no tal ponto de miséria onde a alegria
não entra, como reza o ditado.
Mas o habitante da Nação portuguesa
é portador de um gene raríssimo
e extraordinariamente resistente
à desgraça. Deve ser daí que
vem a tal locução popular do “fazer
das tripas coração”. “Para pior
antes assim”, dizem as mulheres
quando pedem fiado nas mercearias
ou quando, em nome da barriga,
humilham a cabeça nas filas
da caridade. Mas se é dado ao nativo
da nação esse dom invulgar
de silenciar os murmúrios da barriga,
mesmo quando eles, os murmúrios,
geram sinfonia, o mesmo
já não acontece quando é a cabeça
diretamente atingida. Como hoje
acontece com voraz persistência. O
estado de imoralidade, de devassidão,
de depravação a que chegaram
as instituições da Nação não deixa
alternativa ao nativo. O delírio, originado
pela sequência de escândalos
políticos e financeiros ao mais
alto nível, é o primeiro sintoma da
depressão que acomete coletivamente
a Nação. Em cada cavadela,
minhoca. Quando por escassos
instantes se enchem os pulmões de
ar, julgando que a coisa caiu bem
no fundo, eis que se abre no imediato
novo alçapão. Mais fundo e
mais negro que o antecedente. Não
há cabeça que aguente isto. Não há
nação que resista ao duplo estado
aviltante da barriga vazia e da cabeça
perdida. A justiça bem pode
encher os calabouços com os farrapos
da depravação, da ganância
e da corrupção imaginando, no
seu íntimo, que nada ficará como
dantes. Crendo que “uma cabeça
perdida deita muitas a perder”.
Embora me pareça que isto possa
acabar com uma tirada à antiga,
à grande e à grega: eles só saberão
que nada sabem.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Cante alentejano já é Património Cultural Imaterial da Humanidade
A candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade foi apreciada esta quinta-feira pela Unesco que decidiu integrá-lo na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
De Paris, da 9.ª sessão do Comité Intergovernamental da Unesco para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade, chega hoje uma boa notícia para Portugal.
O cante alentejano, uma das 46 candidaturas, submetidas por vários países, à inscrição na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, foi apreciada e aceite pela UNESCO, tal como sucedeu em 2011 .
FOTOS DAS COMEMORAÇÕES EM BEJA
FOTOS DAS COMEMORAÇÕES EM BEJA
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Cante Alentejano - Contagem decrescente para o Grande Dia
7Câmara Municipal de Vidigueira vai organizar, no próximo dia 26 de novembro, a iniciativa “Vidigueira apoia o Cante Alentejano”, a partir das 18 horas, no Mercado Municipal, com a atuação de grupos corais e instrumentais do concelho, magusto e prova de vinho novo.
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