sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Diário do Alentejo Edição 1682

Editorial
Animais
Paulo Barriga

O animal homem português
vai por estes dias
legislar sobre os maus-
-tratos que o próprio exerce sobre
os animais de companhia. O animal
homem português é bom a legislar.
Gosta de fazer leis. Muitas
leis. Tantas ou tão poucas que até
necessita de fazer leis para que o
próprio animal homem português
não possa ser desculpado por desconhecimento
em relação às suas
convenientes leis. Na assembleia
legislativa, o animal homem português
é uma máquina imparável.
O que faz com que, em ato contino,
a par dos centros comerciais
e dos supermercados, os tribunais
sejam os locais mais concorridos
pelo animal homem português.
Desta feita, o animal homem português
decidiu avançar para um
diploma que prevê penas de prisão
até dois anos para quem maltratar,
matar ou abandonar animais
de companhia. Sim, há
animais homem em Portugal que
maltratam, matam e abandonam
os animais não humanos. E é preventivamente
destinado a ele, ao
animal homem português agressor
do animal de companhia, que
esta nova lei é destinada. Mas será
que o “espetro” da prisão será suficientemente
dissuasor para o
animal homem ofensor dos animais
de companhia? Olhe que
não, olhe que não! Na verdade,
não há como classificar a cobardia
e a crueldade de quem maltrata os
bichos. Para certos animais homem,
a prisão até é coisa pouca.
E então o que dizer de quem maltrata
o seus próprios velhos, os
agride psicológica e fisicamente e
nas férias grandes os abandona à
morte nos hospitais e até em suas
próprias casas? Que dizer, e o que
fazer, com os animais homens que
sovam as mulheres e os filhos, no
“aconchego” do lar, durante uma
vida inteira, apenas porque sim?
Como reagir perante a mamã que
não aguenta a birra da criança em
pleno Pingo Doce e a desanca ao
sopapo e à biqueirada? E, antes de
mais, que dizer do silêncio cúmplice
e generalizado que paira sobre
tudo isto? O animal homem
português, que tanta testosterona
emprega na feitura das leis, deveria
oferecer um nadinha da sua líbido
não à repressão póstuma das
más ações dos animais homem
bestas, mas sim à educação de raiz
dos animais homem enquanto jovens.
É aqui que a coisa reside. Na
educação. Na formação da personalidade.
Porque, apenas pela
força do decreto, não se vislumbra
que o mesmo juiz que manda
para casa o agressor sistemático
da sua companheira possa atirar
para a cadeia o animal homem cobarde
que pontapeia na pança um
animal cão. E depois o dependura
pelo pescoço no ramo de uma oliveira.
Com recurso a um arame
de fardo. Ou assim…

Jogos Sem Fronteiras - Cuba 20|JULHO|14


quinta-feira, 17 de Julho de 2014

O melhor presente do mundo

A todos quantos, de ambos os lados do conflito,
tomaram parte na trégua de Natal de 1914.


Vi-a numa loja de velharias em Bridport. Era uma escrivaninha de tampo corrediço, e o vendedor afirmava tratar-se de uma peça em carvalho do início do século XIX. Há já anos que procurava uma escrivaninha deste estilo, mas nunca tinha encontrado uma que pudesse comprar. Esta não estava em bom estado: a tampa tinha várias rachadelas, uma das pernas estava mal consertada, e havia marcas de queimaduras por todo o lado.
Não era cara, e pensei que poderia tentar restaurá-la eu mesmo. Seria um risco, um desafio, mas era a minha única oportunidade de ter uma escrivaninha assim. Paguei o que o homem pediu, e levei-a para a minha oficina, na parte de trás da garagem. Comecei a restaurá-la na véspera de Natal, sobretudo devido à quantidade de visitas que havia em casa. Faziam muito barulho e eu queria ter algum sossego.
Abri o tampo e puxei as gavetas. Cada uma delas prenunciava um desafio maior do que eu tinha imaginado. O verniz estava a descascar um pouco por todo o lado: parecia que a peça tinha sido salva de um naufrágio. Era evidente que esta escrivaninha tinha atravessado fogo e água. A última gaveta estava empenada e tentei abri-la com cuidado. Mas os meus esforços não resultaram e tive de usar toda a força que pude.
Bati-lhe com o punho e logo ela se abriu, revelando um compartimento secreto. Este continha uma pequena caixa de folha, com uma folha de papel pautada, na qual a mão trémula de alguém tinha escrito “A última carta de Jim, recebida a 25 de janeiro de 1915. Para ser enterrada comigo, quando eu morrer.”
Soube, logo que o fiz, que não deveria abrir a caixa, mas a curiosidade levou a melhor sobre os meus escrúpulos. Como sempre. Dentro da caixa estava um envelope, endereçado a Mrs Jim Macpherson, 12 Copper Beeches, Bridport, Dorset. Peguei na carta e abri-a. Estava escrita a lápis e datava de 26 de dezembro de 1914.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

NOITES AO FRESCO ANIMAM O VERÃO EM BEJA


URBANAS DE BEJA COM HORÁRIO DE VERÃO

Decorrente do contrato celebrado com a Rodoviária do Alentejo, a frequência nas Urbanas de Beja irá sofrer uma redução durante os meses de verão.
Assim informam-se os utentes das Urbanas que, de 18 de Julho a 9 de Setembro vigorarão os seguintes horários:
URBANA 1
DIAS ÚTEIS: 07:30h às 18:50h / SÁBADOS: 07:50h e a 13:10h
PARTIDAS do Largo da Estação de 40 em 40 minutos
URBANA 2
DIAS ÚTEIS: 07:10h às 18:30h / SÁBADOS: 07:30h e a 12:50h
PARTIDAS do Largo da Estação de 40 em 40 minutos
URBANA 3
DIAS ÚTEIS: 07:20h às 18:20h / SÁBADOS: 08:20h e às 09:20h
PARTIDAS do Largo da Estação de 60 em 60 minutos
URBANA 4
DIAS ÚTEIS: 07:10h às 18:10h / SÁBADOS: 11:40h e às 12:40h
PARTIDAS do Largo da Estação de 60 em 60 minutos
URBANA 5
DIAS ÚTEIS PARTIDAS do Largo da Estação:
07:00h | 7:50h | 8:25h | 10:10h | 13:00h | 16:30h | 18:10h | 19:20h
SÁBADOS PARTIDAS do Largo da Estação:
8:00h | 10:10h | 12:45h
Tempo de percurso 30 minutos

sábado, 12 de Julho de 2014

Diário do Alentejo Edição 1681

Editorial
Ciganos
Paulo Barriga

Há um purismo instalado
nos media e nos meios do
Estado em geral que impede
a utilização do termo cigano.
Assim. Sem mais nem menos. A
abolição da palavra “cigano”, de
forma isolada, está relacionada
(mal relacionada) com uma certa
militância ativa contra a estandardização
do termo e a segregação
desta “raça”. Dizer “raça
cigana”, como aqui se disse, acarreta
uma emenda ainda pior que
o soneto. Para lá de ser um conceito
politicamente incorreto, a
noção de “raça”, utilizada para referir
diferentes “populações” da
mesma espécie biológica e com as
mesmas características genéticas,
há muito que cientificamente deixou
de se aplicar à Humanidade.
Poderíamos então aludir à existência
de uma “população cigana”.
A Biologia diz que sim. Que
“população” é um grupo de indivíduos
que acasalam uns com os
outros. Mas aí os problemas éticos
seriam os mesmos que encontraríamos
para “raça”. Já a Sociologia
propõe que uma “comunidade”
seja o conjunto de pessoas que
vive num certo espaço, por um
determinado período de tempo. O
que, sabemos bem, não se aplica a
esta “etnia”. “Etnia cigana” é a designação
que mais agrada aos puristas.
Mal, já que “etnia” define
uma ideia externa. A visão que
terceiros têm sobre um grupo de
pessoas com semelhanças biológicas
ou “culturais”. É uma espécie
de rótulo imposto pela “raça”,
“população” ou “etnia” dominante.
Resta, talvez, a “cultura cigana”.
Será? Numa acessão muito
aberta, “cultura” é o intricado somatório
dos costumes, das crenças,
da arte, das leis, nas normas
que faz de um determinado homem
elemento de uma certa sociedade.
E só quem não conhece
a história dos “ciganos”, a sua origem,
as migrações intermináveis
a que foram sujeitos, as deportações
coercivas a que foram sujeitos,
a dispersão e as perseguições
a que foram sujeitos é que pode
encontrar tal uniformidade cultural
mesmo entre as diferentes
famílias. Por muito próximas que
elas sejam. Veja-se o que aconteceu
há dias em Vidigueira. Uma
desavença entre famílias acabou
aos tiros. E a autarquia acabou
com as desavenças arrasando por
completo o local onde viviam. É a
Lei de Talião no seu estado mais
puro. Que é aplicável porque se
trata de ciganos. Que, como vimos,
é “gente” sem raça, sem população,
sem comunidade, sem
etnia, sem cultura. Mas será que
em certos locais do País “gente”
é um termo aplicável a “cigano”?
Já agora, “gente” é apenas um dos
diferentes sinónimos de “pessoa

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Diário do Alentejo Edição 1680

Editorial
Polícia
Paulo Barriga

Beja tem desde há um mês a
esta parte um novo comandante
distrital da Polícia de
Segurança Pública. Chama-se Paulo
Quinteiro e vem da Escola Prática
de Polícia, onde foi diretor-adjunto
desde 2008. Quinteiro vai chefiar
um comando cujos limites são as geografias
urbanas das cidades de Beja
e de Moura. As demais sedes de concelho
do distrito, assim como todo
o território rural, pertencem ao patrulhamento
da Guarda Nacional
Republicana. Em termos de criminalidade
geral participada às polícias, o
Baixo Alentejo tem um dos mais baixos
índices nacionais. E no que respeita
à criminalidade grave e violenta
é mesmo a região mais pacífica
de Portugal. Apesar de as estatísticas
não serem nada desconfortáveis,
Paulo Quinteiro refere que o seu objetivo
primeiro é fazer diminuir ainda
mais o número de ocorrências, nomeadamente
através de uma “maior ação
preventiva”. Mais polícias na rua, portanto.
A ideia primordial do novo comandante
é boa. Louvável, até. Quem
de bem não concordará com ele? Até
os sindicatos do setor assinam por
baixo, embora, ao contrário de Paulo
Quinteiro, considerem que os meios
humanos ao dispor do comando não
são suficientes. Aliás, com índices de
criminalidade tão baixos, onde algum
temor público advém, na grande
maioria das vezes, da guetização perfeitamente
mal engendrada e socialmente
questionável das comunidades
ciganas da capital de distrito, o
grande problema da Polícia de Beja
parece ser a própria Polícia de Beja. É
notório, de alguns anos a esta parte, a
melhoria individual e tática dos agentes
de polícia, nomeadamente das esquadras
de intervenção rápida e da
investigação criminal. Mas não deixa
de ser igualmente evidente, para não
dizer gritante, o estado a que chegaram
os meios de apoio a estes operacionais.
Nomeadamente ao nível
das viaturas, equipamentos e instalações.
Chega a ser caricato, para não
dizer penoso, assistir à chegada da
polícia em missão, conduzida em veículos
que qualquer cidadão teria dificuldade
em fazê-los passar na inspeção
automóvel. A esquadra de
atendimento é de uma frieza e desconforto
que congela a vontade de
qualquer um lá voltar. Ainda que pelo
bem. Tanto mais que, há vários anos,
a PSP paga renda de um edifício, a antiga
Escola Primária do Salvador, que
serve para muito pouco. Ou quase
nada. Fala-se, aliás, da passagem para
aquele espaço, por falta de uso, de algumas
pendências do Tribunal de
Beja. O discurso do novo comandante
da PSP é bom e tranquilizador para a
população. É um discurso para fora.
Mas, neste momento, quem mais precisa
de ajuda parece mesmo ser a própria
polícia. A melhor maneira de nos
ajudar a nós, de diminuir ainda mais
a criminalidade, é dando uma mãozinha
à corporação. Internamente. Ela
bem necessita. E nós também dela
bem necessitamos.

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Diário do Alentejo Edição 1679

Editorial
66
Paulo Barriga

Esta semana, os 66 diretores
clínicos e não clínicos e os
responsáveis pelas unidades
intermédias de gestão do Hospital
de São João, no Porto, demitiram-
-se em bloco. Uma tomada de posição
dura, firme, e que, veja-se,
obteve a solidariedade do próprio
conselho de administração daquele
centro hospitalar. Os técnicos demissionários
alegam que, nas atuais
condições e circunstâncias, não
podem prestar um serviço de qualidade
aos doentes. Isto porque o São
João está subfinanciado, os equipamentos
estão obsoletos, faltam
materiais e medicamentos e a “asfixia
burocrática” imposta pela tutela
impede a contratação de pessoal
em falta no grande hospital
do Porto. Vai daí, segue uma cartinha
para o Governo. E nem foi preciso
redigir uma resposta em papel
timbrado, para o ministro Paulo
Macedo acenar com um acordo de
“natureza imediata” onde se propõe
resolver os problemas de recursos
humanos do Hospital de São
João, criar uma maior flexibilidade
nos investimentos e uma maior autonomia
daquela unidade hospitalar.
É evidente que os 66 do Porto
não retiraram os seus pedidos de
demissão. Apenas deram ao ministro
um prazo de 15 dias para resolver
os problemas, de facto. E depois
se verá. Os problemas do Hospital
de São João são os mesmos do hospital
de Beja. Corrijo, são os mesmos,
aos quais se acrescentam todos
os outros que têm a ver com a
interioridade, com o rácio populacional
e com a qualidade da gestão.
E, mais recentemente, com a requalificação,
por portaria governamental
de 10 de abril, das unidades locais
de saúde, ao abrigo da qual a
do Baixo Alentejo foi desqualificada.
Ficando em risco a existência
em Beja de especialidades como ginecologia/
obstetrícia (o que poderá
levar ao encerramento da maternidade),
oncologia, urologia, pneumologia,
cardiologia, otorrinolaringologia,
hematologia, reumatologia
e oftalmologia. Isto para já nem
falar do mais que certo encerramento
ou alienação do Hospital de
São Paulo, em Serpa. Parecem-me
“ias” em demasia para que se mantenha
este silêncio fúnebre ao nível
do conselho de administração
da Ulsba e, inclusivamente, ao nível
dos diretores clínicos e de gestão do
hospital de Beja. Um silêncio contrastante
com o ruído vitorioso dos
seus colegas portuenses. Um silêncio
que cheira a medo ou a alinhamento
cego e seguidista com as políticas
governamentais para a saúde.
Ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Políticas governamentais, aliás, que
o próprio ministro reconhece serem
restritivas para a boa saúde dos hospitais.
Ou será que Paulo Macedo
reagiu à insubmissão coletiva do
Hospital de São João, como diriam
as nossas avós, ao jeito do “quem
não chora não mama”?

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Os Livros

Os livros. A sua cálida
Terna, serena pele. Amorosa
Companhia. Dispostos sempre
A partilhar o sol
Das suas águas. Tão dóceis
Tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal cerrada
Melancolia.
Amados
Como nenhuns outros companheiros
Da alma. Tão musicais
No fluvial e transbordante
Ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade