sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1696

Editorial
Especial
Paulo Barriga

Nem sempre ser-se especial
é assim tão extraordinário
quanto isso.
Especial é daqueles adjetivos tramados.
Daqueles adjetivos que depende
muito de quem os toma. De
quem os fala. De quem os articula.
Especial é um adjetivo tão amplo,
tão aberto e, ao mesmo tempo, tão
impeditivo que é de trazer as lágrimas
aos olhos. É muito sadio
ser-se especial como treinador de
futebol num banco de suplentes
ingleses. É muito pouco salutar
ser-se especial como criança no
banco de uma escola de Portugal.
O nosso sistema de ensino é moderno.
Pelo menos do ponto de
vista teórico e legislativo. A escola
reconhece a existência de
meninos especiais. Já não é mau.
Especial, no que toca ao ensino,
é o adjetivo usado burocraticamente
para substituir outros adjetivos
tipo: estranho. Diferente.
Invulgar. Incapaz. Inferior.
Imperfeito. Deficiente, até. A escola
reconhece, de facto, a existência
de meninos especiais. Mas
reconhece-os na sua essência menor.
Ser-se especial é uma chatice.
E ainda por cima é uma chatice
que sai cara. Tanto faz que o especial
decorra de uma mera confusão
ao nível da hiperatividade. Ou
de uma doença raríssima, pouco
conhecida, sem diagnóstico. Em
todo o mundo civilizado, há dezenas
de décadas a esta parte, se
chegou à conclusão que as crianças
ditas especiais, com necessidades
educativas especiais, deveriam
ser integradas, sempre que
possível, no ensino regular. É a
tão pomposamente proclamada
educação inclusiva. Uma educação
humanista com recurso a técnicas
e materiais próprios. Com
integração de professores especialistas
e de terapeutas, quando necessários.
Com turmas pequenas,
adequadas a cada situação. Em
suma: uma educação especial para
as crianças ditas especiais. Mas o
que acontece, de facto, é que, nas
escolas cá do sítio, não há terapeutas
em quantidade suficiente,
as turmas excedem em muito o
número de alunos, há falta de especialistas
e de auxiliares. E, especialidade
das especialidades, o
próprio Ministério da Educação
e Ciência, à laia da burra, atribui
uma espécie de quotas em número
e género miseráveis a cada menino
especial, no que toca à carga
horária distintiva que cada um
deve ter para crescer em harmonia
com os demais. Tudo isto em
nome do bom uso dos dinheiros
públicos, da igualdade de oportunidades,
do Portugal moderno
e inclusivo. Tudo isto numa qualquer
escola ao virar da esquina. Se
isto é o ensino especial, imagine-
-se o que vai no ensino, diria, trivial.

XI Festival Internacional de Tunas Universitárias - Beja 2014

Mais uma edição do "Terras de Cante" que irá ocorrer nos dias 31 de Outubro e 1 de Novembro de 2014, que terá a participação de 4 Tunas a concurso, sendo 3 portuguesas e 1 espanhola. 

No dia 31 irá ser realizada Noite de Serenatas, na Igreja de Misericórdia (Praça da Republica).

No dia 1 o Festival irá ser realizado no PAX JULIA - Teatro Municipal. 



Tunas participantes:

- Tuna de Medicina da Univ. de Coimbra
- Tuna de Derecho de Albacete - Espanha
- Luz & Tuna - Tuna da Univ. Lusíada de Lisboa
- Versus Tuna - Tuna Académica da Univ. do Algarve

- Grupo convidado a anunciar

Organização - Tuna Universitária de Beja / Associação Trovadores de Beja

COMEMORAÇÕES DO DIA DO EXÉRCITO - BEJA 2014

O Dia do Exército comemora-se a 24 de outubro, data em que se celebra a tomada de Lisboa, em 1147, pelas tropas de D. Afonso Henriques (D.A.H), Patrono do Exército Português.


Este ano as comemorações do Dia do Exército serão centradas na cidade de BEJA e o seu início será marcado com um concerto pela Banda do Exército, pelas 21h30, no Teatro Municipal Pax Julia. Entre o dia 24 e 26, a população em geral, poderá visitar a Exposição de Equipamentos e Materiais e assistir a Demonstrações de Capacidades e Meios do Exército. No dia 25 realizam-se as Jornadas Académicas subordinadas ao Tema” Gestão de Segurança da Informação e de Sistemas de Informação: Planeamento Defensivo vs Ofensivo”, no Auditório do IPB;

 O ponto alto destas comemorações, a Cerimónia Militar, está marcado para as 12h00 do dia 26 na Avenida do Brasil.


 programa completo das Atividades Militares Complementares (AMC):
       21/22OUT14 – Montagem dos Materiais pela CMBeja e Som (DCSI)
       23OUT14 – Montagem dos equipamentos/materiais pelo Exército
       240900OUT14 – Balão – Voo Cativo (2 horas)
       241000OUT14 – Inauguração das AMC pelo Exmo TGen VCEME
       241000OUT14 – Torre Multiatividades  (2 horas)
       241130OUT14 – Passeio de Pandur (1 hora)
       241500OUT14 – Torre Multiatividades (3 horas)
       241530OUT14 – Passeio de Pandur (1 hora)
       241700OUT14 – Demonstração Gímnica do IPE
       241730OUT14 – Balão – Voo Cativo (2 horas)
       251000OUT14 – Torre Multiatividades (2 horas)
       251000OUT14 – Balão - Voo livre sobre Cidade de Beja (2 horas)
       251130OUT14 – Passeio de Pandur (1 hora)
       251200OUT14 – Demonstração Cinotécnica - Visita de SExa o Gen CEME e comitiva
       251500OUT14 – Torre Multiatividades (2 horas)
       251530OUT14 – Passeio de Pandur (1 hora)
       251700OUT14 – Demonstração Gímnica do CM - Visita de SExa o Gen CEME e comitiva
       251730OUT14 – Balão – Voo Cativo (2 horas)
       261000OUT14 – Balão - Voo livre sobre Cidade de Beja (2 horas)
       261500OUT14 – Demonstração Cinotécnica
       261500OUT14 – Torre Multiatividades (2 horas)
       261800OUT14 – Atuação da OLE
       261730OUT14 – Balão – Voo Cativo (2 horas)
       262000OUT14 – Encerramento da AMC

sábado, 18 de Outubro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1695

Editorial
Fartura
Paulo Barriga

Havia um tipo de
Beringel, bêbedo, miserável,
pai de um rebanho
de moços pequenos,
esfomeados e sempre agarrados
às suas pernas, esmolando
qualquer coisinha, a quem a
plebe atribuía a seguinte frase:
“A minha é uma casa farta”!
Dito, assim, ao balcão de uma
taberna ou no encosto de uma
parede do largo, a coisa descambava
logo para a paródia.
O homem habitava uma decrépita
barraca zincada e sumida
nos subúrbios da vila,
mas não se fartava de gracejar
com a situação: “A minha
é uma casa farta”! Como assim?
“Eu estou farto de passar
fome, a minha mulher está
farta das minhas bebedeiras,
os moços estão fartos de mim
e da minha mulher… A minha
é uma casa farta!”. O povo
tem esta elasticidade formidável
para lidar com a desgraça.
Tem aquele jeitinho filosófico,
muito natural ou sobrenatural,
para segurar de frente o desconsolo.
“Não há fome que não
dê em fartura”, diz com a certeza
da fome e com a rara hipótese
da fartura. Este fim de semana,
o distrito de Beja é uma
casa farta e com fartura. Com
fartura de coisas para a alma e
para o espírito. Que é a forma
mais abonecada de falar em
feiras e festas e romarias e arraiais
e afins. Tão antigo como
a fome que dá em fartura é o
aproveitamento do terceiro
fim de semana de outubro para
cravar no chão de Castro Verde
as estacas da feira. É o tempo,
há séculos ininterrompido, de
os campaniços descerem à vila
com as romãs inchadas de mel,
com as balsas rebentando de
frutos secos, com as mantas
de lã pelos ombros e os varapaus
apertados nas mãos para
o que der-e-vier. Mas por estes
dias, a celebração festiva da
ruralidade deixou de ser coisa
exclusiva de Castro. Em Beja,
neste mesmo fim de semana,
o campo é outro. É a terra fértil,
a água, a nova agricultura,
as culturas emergentes, a modernidade
de mãos dadas com
as sabedorias antigas. E tudo o
que diga respeito ao campo e à
festa e que, ainda assim, falte
na Feira de Castro e na Rural
Beja, talvez possa ser encontrado
em Mértola. Nos pavilhões
da Feira da Caça. As feiras
no Alentejo estão como o
tempo no Alentejo costuma
estar. Pode levar um porradão
de tempo sem chover que
a água há de acabar por chegar
aos cântaros. De uma só vez. À
farta. Será que é por isso que se
chama fartura ao malacueco?

sábado, 11 de Outubro de 2014

Volta Solidária Alqueva 18|out|14- Penedo Gordo

A EDIA em parceria com a Caixa de Crédito Agrícola de Beja e Mértola e demais empresas locais e regionais e com o apoio da Câmara Municipal de Beja, da União de Freguesias Santiago Maior e São João Baptista e da Associação de Atletismo de Beja organiza a primeira edição da Volta Solidária de Alqueva.
No dia 18 de outubro, haverá uma corrida e uma caminhada, com partida e chegada na aldeia do Penedo Gordo, com passagem pela barragem de Cinco-Reis.
Queremos dar a conhecer a todos, de uma forma alegre, divertida e saudável, os cantinhos do nosso território Alqueva.
Com esta iniciativa pretendemos abrir as nossas portas à população da cidade e concelhos vizinhos, promovendo boas práticas e o espírito de partilha.
As receitas desta iniciativa reverterão integralmente para apoiar a Associação Sementes de Vida, de Beja.
As inscrições devem ser efetuadas no site da EDIA, até ao dia 15 de outubro.
Estão garantidos excelentes prémios e a realização de diversos sorteios.

Diário do Alentejo Edição 1694


Editorial
Implosão
Paulo Barriga

Afinal ele faz falta. O 5 de
Outubro faz a falta que
sempre fez. A celebração
da República faz falta. Pelo menos
a recordação dos seus ideais
mais íntimos e, reconheça-se,
nunca verdadeiramente exibidos
em Portugal. E isto não é apenas
uma questão de mendigar mais
um dia de folga. Mais um feriado
lampeiro. Nada disso. O 5
de Outubro faz tanta falta à política
pátria, como tanta falta faz
uma pinguinha de dignidade
à própria política pátria. Uma
pontinha de decoro. Um poucochinho
de vergonha na cara.
Ou seja: tudo aquilo que faltou
ao discurso de Cavaco Silva. No
dia 5 de Outubro. Esse dia que
tanta falta afinal faz. Num eficaz
golpe de ilusionismo, ou de
escapismo, disse o Presidente
que o sistema partidário corre o
risco de implodir. Melhor: disse
que os políticos constroem a
vida no carreirismo e que esse
oportunismo é fundado no interior
dos próprios partidos.
Ainda melhor: disse que os políticos
incumprem por sistema
as suas promessas e que a coisa
pública está a descambar para a
demagogia e para o populismo.
O que Cavaco Silva não disse ou
não se lembrou de dizer ou não
quis dizer de todo foi a responsabilidade
que o próprio tem no
estado implosivo a que isto chegou.
Carreirismo. Oportunismo.
Demagogia. Populismo. É à escolha
do freguês. Nem por
acaso, a 5 de Outubro deu-se
a fundação de um novo partido.
O Partido Democrático
Republicano. Cujo preceptor, o
talvez eurodeputado Marinho
e Pinto, repetiu com abastada
coincidência as palavras demolidoras
de Cavaco Silva. Disse o
ex-bastonário que não larga o
bastão, como se Cavaco o fosse
e dissesse, que estamos a trilhar
o caminho do suicídio coletivo.
Que os políticos estão ao serviço
das suas clientelas. Que os partidos
são parasitários por definição.
Não deixando, no entanto,
de formar mais um partidozeco.
Igualzinho a todos os outros.
Com os mesmos explosivos
e detonadores atados à cintura,
segundo a definição de Cavaco
Silva. Deram-se estes casos a 5
de Outubro. Um dia que tanta
falta faz. Nem que seja, por estes
tempos, para alegrar a malta a
toque da caixa da hipocrisia e da
tuba da sonsice. Já agora que a
banda fanfa da política vai a passar
na rua: quando se lembrarem
de implodir a coisa, de vez, rijamente,
avisem. E não se esqueçam
de estar dentro do edifício
que vai abaixo. Como verdadeiros
mártires. O povo aludirá às
vossas memórias. Nem que seja
numa boa piada. Talvez de alentejanos.
Talvez…

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1693

Editorial
Comissário
Paulo Barriga

Carlos Moedas foi mostrar
o que valia como pessoa,
como técnico, como político,
como europeísta, aos indagadores
do Parlamento Europeu. Foi e de
lá veio como uma ovação de regalar
o olho. Não precisei de lá estar
para perceber a abada que Moedas
deve ter dado àquela malta. Uma
abada por certo igual às que dava
à nossa malta, quando estudávamos
no Liceu de Beja. Na turma
de Artes Visuais. Precisamente a
única cadeira, a par da desastrosa
Educação Física, onde qualquer um
lhe conseguia pedir meças. Quanto
ao resto, abadas. Abadas a torto e a
direito. Carlos Moedas é um estudioso.
Daqueles seres atentos e cultos
que sabe dar uso, uso verdadeiro,
ao estudo e à aprendizagem.
Dizer que Moedas é apenas um bom
aluno, como agora o demonstrou no
Parlamento Europeu, é tão redutor
como dizer que Amália era somente
uma grande fadista. Não, não é verdade.
Moedas é das poucas pessoas
que conheci que, sendo bom aluno
(o melhor, porventura), era muito
mais do que bom aluno. Talvez
isto não seja lá muito fácil de explicar,
mas numa vida inteira não nos
passam todos os dias pela carteira
do lado tipos como este. Brilhante.
Uma mente brilhante. É o que ele é.
É a que ele tem. Seria desonesto para
comigo e para consigo não demonstrar
aqui algum orgulho por ter convivido
com Carlos Moedas. Por tê-
-lo conhecido tão bem e tão de perto.
Por termos rido juntos e até feito algumas
parvoíces. E também por vê-
-lo agora com uma pasta de comissário
europeu debaixo do braço.
Sim, sinto orgulho, profundo até,
por este bejense. Que não deixou de
exibir, certamente também com orgulho,
as suas origens aos deputados
que o quiseram escutar. Penso
que desde os tempos do Infantando
que Beja não gerava um quadro político
de tão elevado reconhecimento.
Valor. Mérito. Mas também seria desonesto
para comigo e para consigo
se não recordasse aqui, nesta euforia
contida, o papel que Carlos Moedas
teve no atual Governo português,
no apadrinhamento sorridente da
troika e no consequente afundamento
dos pobres do País. No consequente
afundamento do próprio
País. É certo que os homens se medem
pelo resultado, sempre variável
e indomesticável, do somatório entre
a sua “consciência” e o “meio” que
os rodeia. Nestes três anos de resto
zero, o “meio” sobrepôs-se sempre e
em todas as circunstâncias à “consciência”
de Carlos Moedas. Talvez
seja esta a hora de inverter o resultado
desta delicada operação aritmética.
Não é fácil. Isso é coisa apenas
dada a seres verdadeiramente
inteligentes. Não é fácil, mas talvez
seja esta a hora. A hora de tornar
a rir e de fazer algumas parvoíces.
Com o Carlos Moedas. Com o
tal que eu conheci nos bancos da escola.
Orgulhosamente.

segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

“A Abetarda” anima centro histórico de Beja - 4|out|14


Sábado, 4 de outubro, 21h00
Igreja da Misericórdia, Praça da República, Rua dos Infantes e Largo da Conceição, terminando na lateral do Museu Regional

“A Abetarda" é o primeiro projeto que resulta da parceria estabelecida entre o Município de Castro Verde e o Teatro da Terra, e o único que junta o cante alentejano e o teatro de rua a partir de um texto original. O autor João Monge escreve uma procissão pagã habilmente tecida nas malhas da teologia cristã, elevando a Abetarda, símbolo de Castro Verde, a um estatuto mitológico/ dramático.




BA11 Comemora 62º Aniversário



Veja o programa aqui!


sábado, 27 de Setembro de 2014

Feira D'Aires 2014

Nesta edição do certame, que assinala 263 anos, participam expositores de diversos sectores de actividade. Ao lado do pavilhão dedicado às actividades económicas, fica a tenda da gastronomia que inclui restaurantes, tasquinhas e venda de produtos tradicionais como os enchidos, queijos e doçaria.
Para além do programa cultural, o destaque vai também para o cariz religioso do certame, cujo ponto alto é a procissão que tem lugar no Santuário de N.ª Sr.ª D’Aires, no domingo, à tarde.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1692

Editorial
Trovoada
Paulo Barriga

O alentejano tem um afeto,
uma gentileza, muito
grande pelo tempo. Talvez
melhor: o alentejano tem um respeito
inflexível pelo tempo. Pelo
tempo que passa. Mas também pelo
tempo que faz. Do tempo, daquele
que passa, as horas, os dias, as estações,
as gerações, faz o alentejano
um uso tão avarento e apurado,
como se tivesse a desmanchar um
porco. Tudo se aproveita. Desde as
vísceras às boias de toicinho. Todas
as farripas de carne. E até os ossos
do tempo dão sabor a uma qualquer
cozedura. Costumam os estrangeiros
de Portugal, talvez por
isso mesmo, chacotear com o uso
que o alentejano faz do tempo que
passa. Chamam preguiça ao que
o alentejano entende por vagar.
Apelidam de lentidão aquilo que
o alentejano acredita ser a própria
razão de existir. Nomeiam de pachorrento
um ser que, afinal, apenas
tem uma questão muito profunda
e antiga com o tempo. Com
o tempo que passa. E, já agora, com
o tempo que faz. Com as soalheiras.
Com as ventanias. Com as cargas
de água. Aludir ao tempo que faz é
a melhor maneira que o alentejano
encontrou para matar o tempo que
passa. Dizem que foram os antigos
egípcios que inventaram as ciências
meteorológicas. Através da observação
obstinada, repetida, metódica
dos fenómenos atmosféricos.
Mas isso é porque nunca foi feita
uma investigação histórica e antropológica
profunda sobre o alentejano.
Assim, resta-nos a memória. E
as lembranças, transmitidas de geração
em geração, dizem-nos que
o alentejano sempre teve também
esse fraquinho pela adivinhação
climatérica. Se a tarde se põe assim,
amanhã está um calor que não se
pode. Se o vento sopra assado, vem
aí uma borrasca das antigas. Se as
nuvens se juntam daquela maneira
é porque a coisa não está lá muito
famosa. Nisto da predição do tempo
que faz, ninguém bate o alentejano.
Mais do que um adivinho, é um verdadeiro
sábio. Sensível como o mais
afinado dos anemómetros. Mesmo
o alentejano menos fadado para as
decifrações da geofísica acaba por
ser um verdadeiro especialista. Já
se disse que o alentejano gosta de
matar o tempo que passa falando
do tempo de faz. Há povos e culturas
que matam o tempo falando de
comida, do trabalho, da política. O
alentejano fala do tempo. Seja no
pino da canícula ou nas rijezas do
inverno. Seja na mercearia, no gabinete
ou na mesa da sueca. O alentejano
fala do tempo que faz porque o
percebe, porque o tenta prever, porque
sabe que nunca o poderá controlar.
E por isso o respeita com
uma religiosidade elevada ao grau
santíssimo. Sem alertas coloridos.
Nem alarmes. Para hoje dão trovoada.
Temos conversa para uma semana.
É assim…

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

NOITE DE FADOS - 27|SET|14 - AJUDA O DESPORTIVO DE BEJA


O Clube Desportivo de Beja vai realizar o espectáculo “Centenarium” - noite de fados, no Sábado 27 de Setembro no NERBE, com início agendado para as 20 horas.
Os consagrados fadistas Ana Rato, Ana Tareco, Mafalda Vasques e Carlos Filipe são os cabeças de cartaz.
O Acompanhamento estará a cargo de Rogério Mestre(Guitarra Portuguesa) e Carlos Franco (Viola de Fado).
Devido à presente crise e a uma consequente drástica redução de donativos, o Clube Desportivo de Beja está a passar por uma situação desesperada de sobrevivência, pelo que a receita desta grande noite de fados é vital para a sua sobrevivência do clube, que conta para época 2014/2015, com mais de 180 atletas distribuídos entre o futebol 11 e o FUTSAL.

As reservas podem ser feitas através dos seguintes números de telemóveis: 965 465 558 / 968 448 178 / 962 765 645.

sábado, 20 de Setembro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1691

Editorial
Paideia
Paulo Barriga

A língua e cultura portuguesas
brotam desse
tronco fundamental e fértil
que é a Antiguidade Clássica.
Principalmente do grego antigo,
depois helenizado e latinizado.
Mesmo quando os árabes subiram
à Ibéria, no apogeu da sua
existência civilizacional, um dos
seus principais legados foi precisamente
a recuperação, a partir
das fontes originais, dos textos
gregos elementares. É de lá,
da forja de Aristóteles, de Platão,
de Homero, que vem o molde do
nosso pensamento, da nossa cultura,
dos nossos mitos, dos nossos
medos. Não deixa de ser curioso
que hoje, em Portugal, o ensino
do Grego e do Latim quase tenham
desaparecido da nossa rede
universitária. E que se contem
quase pelos dedos de uma mão os
alunos do secundário com preferência
em clássicas. Por aqui também
se mede o estado de saúde a
que chegou o nosso sistema de
ensino. Pelo contrário, este património
genético imaterial da
Europa ganha adeptos a cada dia
que passa nos países do Norte.
Aliás, é alemão o filósofo que, na
antecâmera da Segunda Grande
Guerra, se embrenhou na forma
de transmissão de conhecimento
da Grécia Antiga. Werner Jaeger,
na sua obra essencial Paideia, elucida-
nos da forma como os gregos
entendiam a formação dos
jovens. Paideia, segundo este pensador
germânico, é o termo que
na Grécia Antiga se utilizava para
designar “todas as formas e criações
espirituais”, sem nunca descorar
o maior dos tesouros: a tradição
oral, o legado geracional.
A ideia fundamental da Paideia,
por conseguinte, era o desenvolvimento
de todas as potencialidades
da criança no campo das artes,
da cultura, das ciências, do
pensamento, do desporto. Com
o objetivo de criar bons homens
e melhores cidadãos. Platão, citado
por Jaeger, diria mesmo que
a Paideia era “a essência de toda
a verdadeira educação”. O que
“dá ao homem o desejo e a ânsia
de se tornar um cidadão perfeito
(…) tendo a justiça como fundamento”.
Quando se operam reformas
no ensino em Portugal, como
agora acontece, desvalorizando os
professores, desautorizando-os,
humilhando-os, fechando escolas,
afastando os alunos das suas
origens culturais e sociais, não
estamos a tecer o tapete do desenvolvimento
e da igualdade de
oportunidades no ensino. Não estamos
a criar bons homens e melhores
cidadãos. Como com tanta
veemência os políticos apregoam.
Estamos, isso sim, a entrelaçar
uma manta de ilusões. Cosendo
hoje. Desemaranhando amanhã.
Estagnados no tempo. Tal como
Penélope, enquanto aguardava
por Ulisses.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Feira da Música 26 a 28 set 2014 - BEJA


Nota de imprensa - I Feira da Música de Beja
A Zarcos - Associação de Músicos de Beja é uma associação sem fins lucrativos
sedeada na Casa da Cultura de Beja que surgiu em meados de 2011, tendo como
principais objetivos desenvolver meios e condições que incentivem à criação artística e
à proximidade com a música, bem como proporcionar iniciativas de âmbito artístico e
cultural à comunidade em geral.
É atribuído à associação o nome de Zarcos em homenagem a Emídio Zarcos, um grande
músico bejense destacado pela sua aptidão a tocar bateria e percussão.
A Feira da Música de Beja tem a sua 1ª edição nos dias 26, 27 e 28 de Setembro de
2014 na Casa da Cultura de Beja. Os principais objetivos deste evento são a
divulgação, dinamização e aprendizagem de várias áreas artísticas e culturais ligadas ao
sector musical, contando para isso com uma variada programação que incluí
workshops, palestras, exposições, sessões de cinema e muitos concertos. A Feira da
Música contará ainda com a presença de várias entidades ligadas ao sector musical, bem
como uma feira do disco e intrumentos usados.
Inseridos na programação de espetáculos, iremos contar com a presença de alguns
nomes promissores e outros já bem estabelecidos no meio artístico português como o de
Anamar, cantora e atriz portuguesa ligada ao pop e à música tradicional, Vítor Rua,
membro fundador de Telectu e do Grupo Novo Rock (GNR), Rafael Toral, músico
com formação em jazz ligado ao eletrónico experimental, que na década de 80 tocou
nos Pop Dell’Arte e que conta com várias colaborações de nomes internacionalmente
conhecidos, como Jim O’ Rourke, Sonic Youth, John Zorn, Lee Ranaldo, entre outros.
Durante a tarde iremos também contar com showcases com músicos locais e não só.

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1690

Editorial
Jihad
Paulo Barriga

O Al Andaluz, que equivale,
mais coisa menos coisa,
ao território da Península
Ibérica, faz parte dos planos estratégicos
da jihad global. Parece uma
brincadeira de mau gosto. Mas não
é. A ameaça é recente. É real. E tem
cada vez mais apoiantes nas extensões
magrebinas do autodenominado
Estado Islâmico (EI). O próprio
ministro espanhol do Interior
já reconheceu publicamente que
as intimações que circulam na
Internet são para levar a sério.
Muito a sério. É certo que ninguém
esperará um desembarque jihadista
nas praias de Espanha ou do
Algarve. Mas alguns especialistas
citados pela imprensa internacional
acreditam que o EI está em condições
de atentar contra a Europa e
os Estados Unidos nos próximos
meses. Sendo que “a terra dos nossos
avós”, como eles a prenunciam,
consta na carta de intenções dos
terroristas. O que não deixa de ser
patético. É certo que o grande objetivo
militar e político do “califa”
Aboubakr el Bagdadi é içar a bandeira
negra em Damasco e Bagdad.
O problema é que no próximo
oriente existem hordas dos chamados
“lobos solitários”. Jovens radicais,
em autogestão, que estão dispostos
a fomentar a “guerra” por
conta própria. Não uma guerra
qualquer. Convencional. Mas uma
guerra em nome do mito do paraíso
perdido. O Al Andaluz, enquanto
espaço geográfico, não lhes
interessa propriamente. Interessa-
-lhes, outrossim, a lenda de uma
grande civilização muçulmana,
unitária e alternativa ao culto do
Ocidente. De facto, os tempos áureos
do Al Andaluz representam,
de alguma forma, isso mesmo.
O multiculturalismo. A tolerância.
O livre pensamento. A descoberta.
A ciência e as artes. E é precisamente
esse legado formidável e
tão formidavelmente recuperado
pelo professor António Borges
Coelho. Tão intenso e tão intensamente
escavado pela equipa de arqueólogos
de Cláudio Torres. Tão
vibrante como os poemas de Al
Mutamid que Adalberto Alves juntou
no seu árabe coração, é esse legado
que não condiz com a pilantragem
que se propõe reconquistar
o Al Andaluz com bombas atadas
ao peito. O bom caminho, aliás, é
o da Destruição da Destruição.
Que é um título de um livro do médico
e filósofo Averróis, nascido em
Córdoba no século XII. Um pensador
que acreditava na coexistência
de mais do que uma verdade para
uma mesma leitura. Em suma, será
que é desta liberdade interpretativa
e intelectual que falam os “lobos
solitários” quando se propõem
libertar o Al Andaluz? Ou preferirão
apenas servir em bandejas berberes
mais algumas cabeças decepadas?
Esta gente não é digna do
seu próprio passado. E muito menos
da terra dos seus avós.