Editorial
Movimento
Paulo Barriga
Na semana passada nasceu
em Beja, de parto espontâneo,
um novo movimento
de cidadãos. Este, promovido
por gente mais nova, foi dado à luz
no
Facebook. E, em menos de nada,
atingiu mais de cinco mil aderentes.
A ideia central do grupo cívico,
que até agora ainda não apresentou
manifesto, passa pela condenação
do abandono das obras nas duas
vias que integram a concessão rodoviária
do Baixo Alentejo. “Revolta-te
por Beja” é o nome desta ação que
promete passar muito rapidamente
dos “likes” para a rua. O que não é
fácil. Uma coisa é fazer revoluções
com um clique no rato do computador.
Outra é mobilizar gente, em
concreto, para a ação. E os movimentos,
os verdadeiros, têm a ver
com isso mesmo: com ação. Mas não
deixa de ser curioso constatar que
em Beja, principalmente desde o último
mantado da CDU, se sente uma
certa deriva social que, a espaços,
converge em ações concretas. E essa
deriva de massas, de alguma forma
apartidária, muitas vezes apolítica,
tem a ver com esta espécie de orfandade
a que a cidade chegou. E que
as pessoas de Beja sentem de forma
muito forte. Ou dolorosa. Parece
perfeitamente aceitável afirmar que
a última eleição para a autarquia
partiu desse desconforto e dessa disponibilidade
para a mudança. Para
o movimento. Nenhum partido ganhou,
nem nenhum partido perdeu
a Câmara. Houve sim uma necessidade
transversal de rutura.
Que levou à mudança. E que continua
latente no seu insatisfeito íntimo.
A bola parece que passou para
o lado das pessoas. Definitivamente.
Isso notou-se plenamente no movimento
“Beja Merece”, que, de alguma
forma, se esgotou nos comboios.
Ou mesmo com diferentes
ações de solidariedade que têm
acontecido nos últimos anos. Com
a catástrofe na Madeira, com a preservação
do Museu Regional ou até
mesmo com a salvação das aflitas
Palavras Andarilhas. Esta massa insatisfeita
e insubmissa e incontrolável
atormenta por certo a esfera
política. E aquilo que antes eram espingardas
contadas transformou-se
agora num verdadeiro quebra-cabeças
para os partidos tradicionais. Há
quem já tenha percebido a existência
do fenómeno e se prepare para
ir a votos com uma lista de cidadãos
nas Autárquicas de 2013. Mas uma
coisa é perceber a existência do fenómeno
e outra, completamente diferente,
é perceber o fenómeno em si.
O movimento, esse verdadeiro cavalo
selvagem que parece não dar
mão a ninguém. É necessário ter inteligência
para o domar. Muita inteligência.
Ou como dizia de si próprio
o escritor norte-americano Mark
Twain: “devo ter uma enorme quantidade
de inteligência; às vezes até
levo uma semana para a colocar em
movimento”.

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