quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Diário do Alentejo Edição 1584

Editorial


Movimento
Paulo Barriga



Na semana passada nasceu

em Beja, de parto espontâneo,

um novo movimento

de cidadãos. Este, promovido

por gente mais nova, foi dado à luz

no

Facebook. E, em menos de nada,

atingiu mais de cinco mil aderentes.

A ideia central do grupo cívico,

que até agora ainda não apresentou

manifesto, passa pela condenação

do abandono das obras nas duas

vias que integram a concessão rodoviária

do Baixo Alentejo. “Revolta-te

por Beja” é o nome desta ação que

promete passar muito rapidamente

dos “likes” para a rua. O que não é

fácil. Uma coisa é fazer revoluções

com um clique no rato do computador.

Outra é mobilizar gente, em

concreto, para a ação. E os movimentos,

os verdadeiros, têm a ver

com isso mesmo: com ação. Mas não

deixa de ser curioso constatar que

em Beja, principalmente desde o último

mantado da CDU, se sente uma

certa deriva social que, a espaços,

converge em ações concretas. E essa

deriva de massas, de alguma forma

apartidária, muitas vezes apolítica,

tem a ver com esta espécie de orfandade

a que a cidade chegou. E que

as pessoas de Beja sentem de forma

muito forte. Ou dolorosa. Parece

perfeitamente aceitável afirmar que

a última eleição para a autarquia

partiu desse desconforto e dessa disponibilidade

para a mudança. Para

o movimento. Nenhum partido ganhou,

nem nenhum partido perdeu

a Câmara. Houve sim uma necessidade

transversal de rutura.

Que levou à mudança. E que continua

latente no seu insatisfeito íntimo.

A bola parece que passou para

o lado das pessoas. Definitivamente.

Isso notou-se plenamente no movimento

“Beja Merece”, que, de alguma

forma, se esgotou nos comboios.

Ou mesmo com diferentes

ações de solidariedade que têm

acontecido nos últimos anos. Com

a catástrofe na Madeira, com a preservação

do Museu Regional ou até

mesmo com a salvação das aflitas

Palavras Andarilhas. Esta massa insatisfeita

e insubmissa e incontrolável

atormenta por certo a esfera

política. E aquilo que antes eram espingardas

contadas transformou-se

agora num verdadeiro quebra-cabeças

para os partidos tradicionais. Há

quem já tenha percebido a existência

do fenómeno e se prepare para

ir a votos com uma lista de cidadãos

nas Autárquicas de 2013. Mas uma

coisa é perceber a existência do fenómeno

e outra, completamente diferente,

é perceber o fenómeno em si.

O movimento, esse verdadeiro cavalo

selvagem que parece não dar

mão a ninguém. É necessário ter inteligência

para o domar. Muita inteligência.

Ou como dizia de si próprio

o escritor norte-americano Mark

Twain: “devo ter uma enorme quantidade

de inteligência; às vezes até

levo uma semana para a colocar em

movimento”.

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