quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Diário do Alentejo Edição 1588


Editorial


Equívocos
Paulo Barriga


O presidente da empresa


pública Estradas

de Portugal acha que a

construção da autoestrada entre

Beja e Sines é “mais um equívoco

técnico”. Porque é uma obra

muito cara. E porque “numa

perspetiva realista” por lá passariam

apenas dois carros a cada

minuto. Vai daí, acaba-se de vez

com o equívoco e “poupa-se” ao

Estado qualquer coisa como 338

milhões de euros. O deputado

Mário Simões concorda plenamente.

Esta autoestrada, diz ele,

é um “capricho” desadequado à

nossa realidade. E a sua construção

parte de um “raciocínio que

tem tanto de pobre como de perigoso”.

Aliás, a “dimensão de tal

embuste” deve levar os responsáveis

pela ideia, com José Sócrates

à cabeça, a sentarem-se no banco

dos réus. O engraçado da questão

é que o embuste, o capricho e o

equívoco apenas foram detetados

agora. Quando parte considerável

da obra está no terreno. Das

primeiras coisas que um bom pai

ensina a um filho é que deve comer

a sopa até ao fim. Não só porque

o fortalece, como o desperdício

é coisa muito feia. É quase

tão feia como cuspir na própria

sopa. E o que este Governo nos

vem dizer agora é que o desperdício

não é assim tão mau quanto

isso e que, por vezes, é necessário

dar uma boa cuspidela. Foi o que

fizeram. É o que têm feito os sucessivos

governantes de Portugal

em relação à nossa região. Cuspir.

Cuspir sobre todos os nossos

equívocos. Foi assim, durante

décadas, com a barragem

de Alqueva, cujo financiamento

para concluir o projeto, equivocamente,

ainda não está garantido.

Foi assim com o desmantelamento

das vias ferroviárias de

Moura e da Funcheira e com o

fim da ligação direta a Lisboa. Foi

assim com o aeroporto de Beja.

Foi assim com a autoestrada, essa

“imbecilidade”. Cuspir. Mas só

foi assim porque o Alentejo não

tem escala em termos de votos.

E porque o Baixo Alentejo sempre

se equivocou quando elegeu

os seus deputados pelos partidos

que acabaram no Governo. Não

temos voz lá em cima. Não temos

dimensão cá em baixo. Estamos

tramados como sempre estivemos.

Estamos equivocados como

sempre estivemos. Estamos sós

como sempre estivemos. Mas vamos

salvar o País poupando uma

ninharia ao mesmo Estado que

construiu três autoestradas entre

Lisboa e o Porto. Estamos a

ser comidos por parvos como

sempre fomos. Não se sabe é até

quando é que seremos pacientes

com esta gente como temos sido.

A paciência, a nossa resignação,

parece estar por um fio. Estarei

equivocado?

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