sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Diário do Alentejo Edição 1662

Editorial
Inverno
Paulo Barriga

Quando na rua vejo o
Inverno, não é o inverno
que avisto. Mesmo agora
que está esta morrinha parva e
frio e vento e lamaçal, quando o
Inverno aparece é a primavera
que dispara em todos os sentidos.
Não é o inverno que predomina.
Nunca é o inverno que prevalece,
quando se aproxima o Inverno. É
antes um raro tempero à base de
sol e de azul e de pássaros acabados
de chegar. Tão tranquilo
e empolgante, o Inverno, como
as ribeiras cheias de peixe o são.
Ou a sombra larga e rija de uma
azinheira o é. António é o outro
nome que por cá costumamos dar
ao Inverno. António Inverno. Um
alentejano de Monsaraz que foi
ainda rapaz para Lisboa aprender
os esconderijos e os preceitos
das belas-artes. Fez-se pintor.
Um belíssimo pintor, dizem os especialistas
do óleo e do pastel. E
fez-se gravador. Um incomparável
gravador, asseguram os peritos
de todas as oficinas. António
Inverno regressou ao Alentejo há
mais de uma década. Tem deambulado
entre Serpa e Beja. Por vezes,
os grandes mestres da pintura
visitam-no. Requisitam-no.
Querem-no. Por vezes, o Estado
atribui-lhe honrarias, menções,
comendas. Por vezes, penduram-
-lhe os quadros nas paredes de galerias,
de museus, de coleções privadas.
Por vezes, a maioria das
vezes, ninguém vê aproximar-se
o Inverno, ainda que a sua existência
infantil e meiga faça lembrar
a primavera. Sempre. Não
prestar atenção ao Inverno, principalmente
por parte daqueles
que habitam onde o Inverno também
escolheu habitar o ano inteiro,
é uma pena. Sim, pena é a
palavra certa para quem não sente
o Inverno. Fica mais pobre, que
disso não restem dúvidas, quem
tem à soleira da porta o Inverno e
nele não repara. E isso é uma pena.
Como faz pena que um dos mais
conceituados artistas-plásticos do
País ande aos repelões por uma cidade
como Beja sem que alguém
para ele abra os olhos. Com olhos
de sentir. Com olhos do coração.
É um crime de lesa-cultura não
estender uma mão ao Inverno, às
suas obras, ao seu génio, simplesmente
ao seu sorriso. É que todos
sabemos que os invernos, mesmo
os que não costumam ser,
não duram sempre.