quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Diário do Alentejo Edição 1737


Editorial
Taipar
Paulo Barriga

O vocábulo não existe no léxico
português. Quer dizer,
há um afluente de um
rio brasileiro que os indígenas conhecem
por Taipar. Mas só eles e
apenas eles o conhecem e utilizam.
Com algum esforço poderíamos admitir
a existência de um verbo que
revertesse para a ação de produzir a
taipa, uma argamassa de terra e de
outros materiais capazes de sustentar
paredes. Foi, disseram-no, esse o
significado que buscaram os orientadores
de uma residência artística
comunitária que no passado mês de
julho decorreu em Serpa, por ocasião
do Festival Noites na Nora. A
ideia central passou por construir,
por “taipar”, algo suficientemente
incomodativo com pessoas da comunidade
local, na sua larga maioria
crianças e jovens. “Taiparam”
um filme. Um breve documentário
onde expuseram com ironia as
suas inquietações. Ou desinquietações.
Boa parte da fita mostrava um
banco de encosto, desses que nas
ruas servem de mobiliário urbano.
Umas vezes solitário. Outras habitado
por algum dos “taipadores”.
Quase sempre com alguém postado
de pernas para o ar. Mas por que
raio apareciam persistentemente os
autores sentados às avessas? A resposta
obteve-a um dos orientadores
da residência artística, Marco
Ferreira, no dia da apresentação pública
do projeto. E pela voz dos próprios
intervenientes. Seriam cerca
de 15 jovens. Com idades compreendidas
entre os 10 e os 19 anos,
por aí. Que unanimemente manifestaram
em palco e em público o
seu mais profundo desassossego
ou aspiração: sair de Serpa. Fugir
da sua terra natal. Abandonar o seu
espaço de conforto, a sua família, as
suas gentes, a sua cultura. Abalar.
A conversa, até esta altura, estava
a ter a sua piada. Na plateia as pessoas
riam, aplaudiam, troçavam
sobre os comentários que os jovens
atores iam tecendo com timidez e
debaixo do tal nervosismo que acomete
quem não está habituado à exposição
pública. Mas naquela altura
fez-se silêncio. Absoluto. Tumular.
Como se um espesso manto tivesse
caído sob a assistência. O manto da
realidade, escura como as trevas e
dura que nem cornos. Um após outro,
naquele improvisado confessionário
popular, as crianças e os
jovens de Serpa (que será apenas a
metáfora ou o molde para todos os
lugares do interior profundo), abriram
a sua alma e disseram com a
sinceridade que lhes é própria que
querem ir “taipar” para outras paragens.
O triste é que não há, nem
a nível local, nem a nível nacional,
gente com génio e inspiração e capacidade
para meter mãos ao barro.
Para erguer um futuro onde os nossos
moços e as nossas moças queiram
participar. Algo que não seja
de cabeça para baixo e de pernas
para o ar, como neste filme.

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