sábado, 28 de novembro de 2015

Ai Romana ai Romana ai Romana...!

Uma gasosa, por favor


Paulo Barriga


O meu pai era um homem de tabernas. Um
homem do tempo em que as tabernas eram
a casa dos homens. Pelo menos dos homens
assalariados, tal como o meu pai o era. Dos homens
que pela tardinha exaltavam esse raro oferecimento
de ainda terem trabalho. Engolindo de uma só vez
minúsculos copos de vinho. O vinho do trabalho.
Havia qualquer coisa de digno e de solene naquele ritual
ao sol-pôr.
As tabernas que os homens como o meu pai frequentavam
eram uma espécie de abadias. Locais de
culto cuja espessa atmosfera, toldada pelos odores próprios
ao sarro e ao mosto, quase dava para retalhar com
o aço das navalhas que os homens como o meu pai
guardavam no fundo das algibeiras. As tabernas cheiravam
aos homens e os homens cheiravam a taberna.
Um novo riscar de botas na soleira. Vêm cardadas,
as botas. Para durarem. Um grito metálico que vai diminuindo
ao longo do caminho. Breve. Apenas alguns passos
sobre o soalho coberto de inúteis aparas de madeira.
Chegou mais um. E um outro. E outro depois deste e daquele.
Seres cuja singularidade se dilui imediatamente na
coletiva e indomável vozearia que os homens costumam
produzir quando se juntam assim, desta forma, encostados
a um balcão de pedra mármore.
Dedais de vidro cheios de gasosa eram dados aos
rapazes que, como eu, iam agarrados às calças dos
pais para as tabernas. Acho que era uma espécie de
rito iniciático, este. A laranjada também poderia servir
ao batismo, mas a sua cor denunciava a farsa de
forma mais efetiva.
Ainda hoje não consigo perceber como é que a
“coisa” acontecia. Não consigo perceber como, nem
exatamente quando. Esforço-me, mas nada me
ocorre. A não ser um silêncio de sepulcro, íntegro e repentino.
Apenas importunado pelo puxar de uma ou
de outra catarreira. Nada mais.
Se fechar os olhos com firmeza ainda ouço esse
silêncio tão profundo, como precário. Que se desfaz
no instante seguinte, subjugado por uma voz
funda, cheia, toante. Delicada e autoritária, ao mesmo
tempo. É a voz de um só homem que agora se impõe
à consentida mudez de todos os outros. É a voz de um
só homem, mas não é uma voz solitária. Nela parece
que cabe um povo por inteiro.
Dentro da minha cabeça permanece até hoje a
dolência desse impulso. Como se as palavras cantadas
fossem ondas e espuma e o arrastar da moda maresia.
As palavras. Mas as palavras ateimam e insistem em
falar de outro mar. Do mar de dentro. Da terra. E de
dívidas por saldar entre ambos. Entre o homem e a
terra. Durante a vida e até para lá da morte.
Como um silvo de uma locomotiva a irromper
pela imensa solidão, outra voz. Mais fina, esta, mais
atrevida. Insolente, quase. E mesmo antes que ela se
imponha, apoteótica, todas as outras, de fundo grave
e poderoso, se lhe juntam. Numa espécie de abraço
apertado. De reconciliação. A terra paga-me em vida,
eu pago à terra em morrendo.
Foi a poder de copos de gasosa que me dei conta
da religiosidade destes homens. Praticantes de um
culto tão profundo, tão genuíno, tão verdadeiro, tão
longínquo e tão identitário como a sombra de uma
azinheira. Ou como a calma no estio. Ou como uma
fonte de água fresca. Ou como uma pedra, apenas.
Não, os homens não cantavam na taberna para matar
o dia. Aquilo era um recomeço sempre inacabado de
qualquer coisa muito importante. Grande e transcendente.
Ainda hoje não sei dizer o quê. Desconfio, mas
não sei ao certo.
Ou talvez saiba. Faz agora precisamente um ano
que estive em Paris numa conferência da Unesco, enquanto
jornalista. Numa daquelas reuniões onde peritos
das sete partidas do mundo decidem quais os
“bens” que merecem constar numa lista que representa
as singularidades da Humanidade. E, entra elas,
estavam os cantares que o meu pai, e que os homens
como ele, entoavam nas tabernas, para se sentirem
verdadeiramente homens. Ao final do dia.
Percebi, afinal, que o cantar, que este nosso cantar,
detinha algo que nos excedia e ultrapassava. Que era
nosso, muito nosso, com certeza que sim, mas que não
nos pertencia em rigor. O cante estava, na verdadeira
razão da metáfora, nas mãos do mundo e o mundo
tomava-o como seu. Como se fosse uma gema muito
rara e preciosa.
A nós, que nos julgávamos proprietários unos e
indivisos do cante, restáva-nos assistir àquela examinação.
E aguardar. Em silêncio. Com aquele nó na
garganta, tão comum nas antecâmaras anexas às salas
de parto. Enquanto o mundo olhava para todas as
superfícies lapidadas que o cante tem, com um misto
de deslumbramento e de espanto. Uma sensibilidade
muito parecida àquela que nos toma quando reencontramos
alguém muito querido que não vemos há
demasiado tempo. Ou quando encalhamos no nosso
brinquedo predileto, uma vida inteira negligenciadamente
desaparecido.
Por fim, a sentença: Sim, aquilo que esta gente nos
canta, também nos pertence! Não foi bem assim, mas foi
assim mesmo que as palavras do porta-voz do mundo me
soaram, enquanto fazia embater contra o tampo da mesa
o martelo da razão. Não consegui conter as lágrimas.
Bem sei que à minha função se exige desprendimento
e sangue-frio. Confesso, nunca como no dia 27
de novembro de 2014 me senti tão comprometido. Não
apenas porque o cante acabava de ser inscrito e reconhecido
como expressão universal. Mas também porque
a sala onde o mundo inteiro se junta uma vez por
ano mergulhou, naquele preciso instante, num cavado
emudecimento perante a fortaleza intransponível das
vozes dos cantadores do rancho de Serpa.
Digo-o com sinceridade, naquele momento não
estava em Paris no auditório central da Unesco, nem
aqueles eram os cantadores da Casa do Povo de Serpa.
Estava numa qualquer taberna do Alentejo e quem se
ouvia era o meu pai e todos os homens que, como ele,
cantavam e ainda hoje cantam porque apenas dessa
forma se sentem inteiros.

Apeteceu-me beber uma gasosa.

2 comentários:

Nolidisargax56 disse...

Este editorial trouxe-me à lembrança um grande dia que se prolongou pela noite fora.
Era eu um jovem de onze doze anos e no decorrer do casamento de um primo em comum, no Barranco da Figueira, seu pai e o seu compadre Joaquim por quem tinha uma enorme estima, cantaram, beberam e dançaram, animando como ninguém a festa, lembra-me sobretudo porque quer eu, quer o primo Álvaro tínhamos sido cúmplices na manobra de ter escondido na fonte dentro da horta de duas caixas de cerveja, e estávamos proibidos de o revelar, assim com o avançado da hora a cerveja acabou e ao sinal de um ou de outro lá íamos nós buscar mais duas cervejas. Claro que isto provocava uma grande curiosidade dos outros familiares que estavam na festa. Mas a sua grande amizade e cumplicidade em nada era abalada. Desta grande festa resultou que o seu pai acabou uns dias no hospital de Santa Maria em Lisboa, (nada de muito grave felizmente) e meu pai oito dias de cama, (nada de grave que eu me lembre).Dois grandes homens, dois cunhados mas sobre tudo dois grandes amigos.
X.Dias

Álvaro Barriga disse...

Como é bom recordar... Xavier, grandes tempos . O barranco da Figueira era um paraíso, mesmo considerando o muito trabalho que dava :)
Um abraço
A.Barriga