terça-feira, 29 de março de 2016

Diário do Alentejo Edição 1770

Editorial
Isto
Paulo Barriga

Perante o horror, perante
a barbárie e a intolerância
e o ódio sem limites,
há quem baixe os braços. Mesmo
sabendo que é na desistência que
reside a ignorância e a incapacidade
de compreender o problema
nas suas extensões mais profundas
e fundamentais. Também há
quem hoje mesmo clame por vingança.
Mesmo sabendo que a regra
do “olho por olho” é a tentação
que habita na beirinha do precipício.
Não é fácil conviver com “isto”.
E mais difícil se torna a convivência
quando “isto” se repete a cada dia
que passa. A banalização do terror
não pode conduzir à indiferença
e, muito menos, à resposta por estímulo
ao próprio terror. Esse é o
principal objetivo de quem “isto”
anda a provocar. Alterar a nossa
maneira de ser, as nossas vivências,
as nossas dinâmicas em sociedade,
radicalizar o nosso pensamento é
aceitar a vitória do terror. Ou melhor,
é reconhecer que o medo tomou
conta de nós. E essa é a mais
poderosas das bombas, o mais cruel
e suicida dos atentados, porque coletivo.
O chamado mundo ocidental
está confrontado com uma espécie
de fim de ciclo e a mola que
o fecha, embora possa parecer, não
são os miúdos dos subúrbios das
grandes cidades europeias. É a ignorância.
É o desconhecimento face
ao outro, a desconfiança, tantas vezes
a desconsideração e a insensibilidade.
E também aquela postura
tão arrogante e ao mesmo tempo
tão ingénua de acharmos que tudo
o que se passa para lá da soleira da
nossa porta não nos diz respeito.
Foi “nisto” que deu a nossa incultura.
E “nisto” iremos permanecer
até que nos mantenhamos inscientes
do mundo que nos rodeia.
Esta semana recebi um convite de
um importante arabista e poeta
com origens em Beja, Adalberto
Alves, para assistir a uma mesa-redonda
que decorrerá a 14 de abril,
em Florença, sob o lema “Encontro
entre culturas: as literaturas portuguesa
e árabe em diálogo”. No
dia anterior, na mesma cidade italiana,
Elena Chiarini, defenderá a
tese “A cultura árabe na obra literária
de Adalberto Alves”. Na última
sexta-feira, em Mértola, um grupo
de investigadores liderados pelo arquiteto
Miguel Reimão Costa, apresentou
em livro e em filme o resultado
de um aprofundado trabalho
de levantamento da arquitetura
tradicional daquela vila onde se
inclui, quase como molde ou modelo,
o bairro islâmico da alcáçova.
Na ocasião lembro-me de Cláudio
Torres, o suspeito do costume, afirmar
qualquer coisa como: “Para
os compreendermos, temos de os
conhecer melhor”. Há anos que
o Adalberto e o Cláudio nos vêm
lembrando deste pequeno detalhe.
Se algum dia os tivéssemos escutado,
talvez “isto” não tivesse agora
acontecido.

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